Capítulo 1
Nome no Serasa e um fantasma com juros.
“Não há nada neste mundo que me aterrorize mais
do que viver condenado à pobreza.”
— Os Fantasmas de Scrooge
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O ventilador do meu quarto fazia um barulho parecido com a respiração de alguém prestes a desistir da vida. E, sinceramente, ele e eu estávamos na mesma vibe.
Sabe aqueles memes do pessoal abrindo a janela e sendo atingido por uma rajada de fogo que parece ter vindo diretamente do inferno? Essa é a ilustração perfeita do verão no Brasil, só não perde pro chuveiro, Lorenzetti, pegando fogo após expelir gotículas de água fervente durante o inverno. Amo nossos memes, juro!
Ana Maria Braga, faz favor: ACORDA MENINA! Foco, Maria Lina!
Voltei o olhar para a pilha de boletos sobre a mesa, que só crescia, como se tivesse vida própria. O cheiro de papel velho e desespero me dava ânsia; o peso de cada uma dessas contas me fazia andar quase curvada.
No meu e-mail a situação não estava diferente.
Cobrança. Cobrança. Cobrança.
Minha respiração foi sumindo.
Água, luz, internet, parcelas do meu apartamento – tudo atrasado; a principal conquista da minha vida e minha única moradia estava prestes a ser leiloada pelo banco da CAIXA. Sem comentar do meu lindo celta azul estacionado no pátio do DETRAN de onde com certeza nunca vai sair, já viu o valor da diária? A dívida está crescendo mais rápido que os pelos do meu sovaco, é insalubre.
Mas, Lina, mulher, que tu fez pra ter seu carro apreendido? Esqueci a carteira em casa bem no dia que a blitz estava acampada de frente à minha cafeteria favorita. Sim, fazendo jus à boa desastrada e esquecida que sou. Não basta ter dois pés esquerdos, cabeça de vento é meu sobrenome.
Ao redor da minha escrivaninha, no meu minúsculo escritório, estou sufocada por caixas enormes empilhadas contra minhas estantes transbordando livros. A situação estava afetando até meu psicológico, pois impedia o acesso a minhas válvulas de escape em forma de folhas impressas com palavras. O conteúdo das caixas é humilhante. Estão todas cheias dos exemplares encalhados do meu último livro.
É, sim… Eu já alcancei uma das metas mais estimadas da vida humana: publiquei um livro – vários, na verdade. Agora, só me falta ter leitores.
OUCH! Isso dói! Mencionar o fato de não ser lida é como me apunhalar com uma faca direto no pulmão. Além de te arrancar o ar, me faz sufocar no meu próprio sangue. Não me pergunte como sei disso, sou escritora, dãw, eu vislumbro. Não é preciso levar uma facada para imaginar como deve ser a sensação; e, bom, aproveitando que estou divagando, espero nunca vivenciar essa experiência.
Lembro do dia em que segurei meu primeiro exemplar: o cheiro das páginas recém-impressas, a alegria quase rasgando meu peito. Hoje, o livro dorme fechado e o orgulho virou dívida.
Suspirando, feito uma mocinha de 10 anos descobrindo a existência de Justin Bieber versão ‘One Time’, rabisquei meia frase sem sentido no meu caderno de ideias, depois risquei de novo.
Travada. Escrita em crise. Quebrada. E, figurinha carimbada do Serasa.
Como naquelas cenas onde o príncipe encantado surge em seu cavalo branco (alô, Taylor Swift: “Now it’s too late for you and your white horse to come around”, mas se ele aparecesse agora eu não iria reclamar), meu celular vibra e a tela se acende ao lado do meu teclado. O WhatsApp notifica uma mensagem…
Selena da minha Swift: “Parece o tipo de loucura que você faria kkkkk” [imagem em anexo]
Abri a mensagem da minha vagabunda preferida, vulgo Alicia, minha melhor amiga. Um print de anúncio.

Arqueei as sobrancelhas. Ok, era golpe de site fake ou um convite oficial para virar protagonista de filme de terror classe B. Silvio Santos, por acaso é você e suas pegadinhas de mau gosto? Nada tão ruim quanto Todo Mundo em Pânico para te tirar da rotina monótona, te rasgando lentamente.
Mas, cinquenta mil reais por mês? Fiz a conta mental em segundos.
Em cerca de 12 meses faturaria meio milhão, ora bolas! É dinheiro pra dedéu.
Com essa grana, eu publicava meu próximo livro, pagava todos os boletos atrasados, resgatava meu carrinho, talvez até consertava o ventilador suicida.
Tenho medo de não limpar meu nome. Tenho medo de que escrever não seja suficiente. Tenho medo de perder até o direito de me chamar de escritora. Tenho medo de nunca superar essa crise. E certamente tenho medo de assombração, mas por dinheiro, acho que vale muito a pena enfrentar isso.
Eu não tinha muita opção senão agarrar-me com unhas e dentes a oportunidade que simplesmente caiu do céu.
— Se o preço é vender minha alma… — Murmurei, olhando para as caixas de livros encalhados. — Bom, é só checar se aceitam parcelado no cartão.
Abri minha câmera frontal só para constatar que meu sorriso de perdedora estava realmente lindo.

Tomei a decisão como quem corta o dedo: dói agora, sara depois. Três horas depois, lá estava eu, de malas prontas e descendo do Uber para a estação rodoviária no centro de BH.
Fagulhas de inspiração já piscavam na minha mente mesmo em um ônibus sacolejante, sob o sol de fevereiro, ar-condicionado quebrado, cabelo grudado na testa e uma garrafinha de água que já parecia chá morno. O importante é que estava a caminho do destino turístico mais famoso de Minas Gerais…
Capitólio cheirava a pão de queijo fresco e protetor solar. Barquinhos lotados cortavam o Mar de Minas, turistas posavam sorrindo para fotos, garças-brancas cortavam o azul-petróleo da água. Era bonito, de um jeito quase insultante.
Meu destino era a Imobiliária Horizonte Eterno. Nome suspeito, parecia coisa de agência funerária, mas ok. O que é um peido pra quem já se borrou inteira?
Atrás do balcão, encontrei o senhorzinho mais carismático que já vi: Seu Noberto, uns setenta anos, chapéu de palha, fala mansa e olhos que já tinham visto coisa demais. Ele me lembrava tanto o velhinho daquela animação da casa com balões.
— A casa é sua pelo tempo que aguentar, moça. — Disse, me entregando o contrato com uma calma assustadora. — Os outros não duraram nem dois dias.
Forcei meu melhor sorriso enquanto meu estômago fazia nó. Seu Noberto era paciência em pessoa, aguardou-me por mais de uma hora relendo cada entrelinha do contrato em minhas mãos, ainda me serviu um café quentinho plantado e colhido aqui em Capitólio. E para minha surpresa, suas palavras eram francas, considerando que sequer havia uma cláusula de rompimento de contrato. Uma coisa é ser lerda, outra é ser burra, então fiz questão de ler tim-tim por tim-tim.
O mais importante era isso: não seria multada por desistência, portanto, sem risco dessa loucura virar dívida. O que, honestamente, era suspeito, mas naquele ponto eu só queria que os cinquenta mil caíssem na minha conta.
— Que ótimo. Sempre gostei de desafios.
— Então vai gostar desse. — Ele piscou. — Porque desafio é pouco.
— O senhor também acredita em fantasmas? — Divaguei enquanto assinava o contrato com minha letra mais caprichada. Notei que a tinta da caneta manchou minha mão e eu me vi, de novo, a menina que acreditava que palavras podiam pagar contas.
Ele olhou no fundo dos meus olhos através de seus óculos de fundo de garrafa, enquanto eu lhe entregava os papéis.
— Doido é quem não acredita, moça. Nós estamos cercados por eles…
Me dei conta que estava feito! Eu assinei, disse sim. Fiz o que não queria: aceitei humilhação por uma chance. Aceitei a casa porque, no fim, ainda me restava uma coisa – a esperança de que, com tempo e dinheiro, minhas palavras encontrassem leitores.

Seguimos no carro dele por quase uma hora de estrada de terra. O caminho era digno de um cartão postal: o Mar de Minas brilhando ao sol, patos marrons nadando, mais garças se erguendo do espelho d’água, montanhas verdes ladeando o horizonte, vendinhas charmosas de souvenirs.
Em contrapartida: era suor abundante escorrendo da minha nuca, descendo pela minha coluna vertebral, até se perder no cós do meu jeans. A sensação agoniante me fazia querer arrancar os cabelos. E o pior, o sacolejar do automóvel naquele monte de cascalho estava fazendo do meu estômago um milkshake.
Mas confesso que a dificuldade do trajeto morreu quando o carro finalmente parou e precisei prender a respiração.
A casa estava lá: um casarão antigo, telhas de barro, varanda larga, paredes descascadas e um charme vitoriano decadente. Parecia cenográfico, assustador de tão lindo.
No quintal, uma lagoa imensa com uma singela cascatinha nos fornecia o som ambiente relaxante. A água brilhava ao toque da luz do sol. É lindo demais!
Seu Noberto encostou o chapéu no joelho.
— Ó… se ouvir piano de madrugada, não responde.
— Não vou responder porque nem sei tocar piano, moço. — Cruzei os braços, meio pra esconder o frio na barriga.
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“Quando você tem medo e faz mesmo assim,
isso é coragem.”
— Coraline
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