Capítulo 10
Shakespeare enfiou o final trágico neste capítulo.
– LINA, A ESCRITORA –
“Parece que ainda tenho
algumas lágrimas pra derramar.”
— A Noiva-Cadáver
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Acordei devagar, sentindo o frio suave de Elias ao meu lado. A luz da manhã entrava pela janela, espalhando reflexos dourados sobre o quarto antigo. Por um instante, fechei os olhos, sentindo o toque de sua presença como uma brisa no inverno, e me permiti respirar profundamente, guardando cada memória da noite passada.
Elias não mentiu quando disse que ficaria cravado profundamente em meu coração. É como se ele pertencesse a cada célula do meu ser. E assim como os primeiros amores, ficará naquela área do cérebro onde se torna inesquecível. Aquela memória calorosa que sempre te causa um friozinho na barriga e um aperto no coração sempre que lembrada. Acho que é uma maneira linda de preservar a existência de quem fez importância na nossa vida.
Nossa. Tô até ouvindo a Taylor cantando ‘Guilt as Sin?’ na minha cabeça: “What if he’s written mine on my upper thigh only in my mind?”
É, acho que finais são dramáticos demais para mim.
Abri os olhos só para contemplar a beleza do homem ao meu lado. Ele estava ali, silencioso, mas inteiro em cada gesto. Seus dedos deslizaram levemente pela minha pele nua, como quem acaricia algo precioso demais para soltar. Sua temperatura já voltara a ser fria, mas acho que não só me apeguei a esse detalhe como me acostumei. Encontrei na sensação gélida o aconchego que geralmente encontramos em abraços.
Respirei fundo, absorvendo o conforto e o desejo contido que vinha dele, enquanto nossas respirações se encontravam no mesmo ritmo.
— Mon chéri… — Sua voz era rouca, quente e ainda cheia da intensidade de ontem à noite. Como adoro esse seu jeitinho de exibir seu francês. Ele sabe como derreter meu coração.
— Oi, meu fantasma safado… — Murmurei rouca, com um sorriso tímido e o coração ainda acelerado.
O jeito que ele me olhou, nunca vou me esquecer. Naquele olhar havia tudo: saudade, desejo, amor e dor. Senti uma pontada de culpa, mas também a certeza de que nada podia mudar o que aconteceu. Eu quis a nossa noite. Me entreguei porque o amo. E não quero me arrepender das melhores coisas que já vivi.
Mas esse momento. Eu sabia o que significava.
Era a nossa despedida.
O fim do amor que nunca teve uma chance sequer de desabrochar. Eu já tinha entendido que nosso relacionamento não era uma possibilidade e só nos machucaríamos se insistíssemos nisso. Uma noite – foi tudo o que tivemos para nos amar. Agora é vida real. E na minha realidade tenho que cumprir a missão de libertar um fantasma.
— Nós… precisamos conversar. — Ele quebrou o silêncio, mas não havia tensão na voz. Só cuidado.
— Eu sei. — Respondi, encostando minha testa na dele. — Foi… intenso demais. Mas precisa acabar. Não quero ser a responsável por te manter preso aqui. Não suportaria viver assim.
Ele assentiu, aproximando o rosto do meu, eu sentia como se nossos corpos estivessem ligados. Respirando pelos mesmos pulmões como se mantidos vivos por um só coração. Cada pequeno gesto, cada suspiro compartilhado, carregava o peso da nossa noite juntos.
Acho que essas são as consequências de copular com um fantasma, você liga sua alma à de um morto. Mas não consigo me arrepender.
— Lina, você merece ser feliz. Mesmo que não seja comigo. — Ele suspirou fundo. — Não vou ser o cara que te faz escolher entre amor impossível e a vida. Você não só pode como deve ter a sua própria felicidade.
— Mas… — Minha voz falhou, e uma lágrima escapou. — Eu ainda te quero.
Ele me puxou para mais perto, envolvendo-me em seus braços numa sensação única que somente sua aura poderia me proporcionar. Era meu corpo quente tentando estabilizar a frieza exalada pelo seu. Nossos lábios se encontraram num último beijo, suave, lento, cheio de lembranças. Não havia pressa, nem necessidade. Apenas a despedida que dois corações impossíveis precisavam.
— Eu te liberto, Maria Lina… — Murmurou, com a voz entrecortada de emoção. — Encontre seu caminho. Se entregue ao mundo lá fora. Você passou tempo demais presa dentro dos seus livros. É hora de viver.
Eu sabia que ele tinha razão, mas sabe quando você quer que não tenha? Eu não podia bancar a criança, precisava entender que o que estávamos fazendo era o certo. Não era por Tunico, de forma alguma, o caipira não tinha nada a ver com isso. Era por nós dois.
Ficamos ali por mais alguns minutos, apenas respirando juntos, sentindo a dor do amor que deixamos para trás. Elias acariciava meus cabelos, meu rosto, meus ombros, e cada toque era um lembrete de que nunca me deixaria sozinha, mesmo que precisasse me soltar.
Será que dormi em frente à TV e acabei presa dentro daquele filme Ghost? Porque nesse momento eu me sinto sozinha como a Molly enquanto Sam – seu namorado fantasma – faz de tudo para alcançá-la.
Quando me levantei para me vestir, ele veio atrás, ajudando-me com o zíper do vestido. Seus dedos eram cuidadosos e firmes, amarrando os laços como quem segura a vida de alguém que ama nas palmas das mãos.
— Você merece ser feliz com um cara legal, Lina. E vou me orgulhar de você por isso. — Disse ele, olhando nos meus olhos, a sinceridade transbordando.
— Vou pedir ajuda do Tunico para ir à cachoeira. — Comentei, tentando animar meu próprio coração e me preparar para o dia. Confesso que foi uma tática para mudar de assunto, antes que eu começasse a chorar. — Assim como você quer a minha felicidade, quero muito a sua libertação. Irei cumprir a minha promessa e depois disso, vou viver intensamente. Viverei de forma com que te orgulhe. Da maneira que penso que você gostaria de ter vivido.
Um sorriso lindo e genuíno surgiu de seus lábios. Meus olhos ameaçaram marejar novamente. Então respirei fundo e me afastei de seus braços.
— E eu… vou continuar aqui — ele tocou o vão entre meus seios. O frio de sua essência atravessou minha pele, e eu estremeci. — De um jeito que só você pode sentir.
Respirei fundo, sentindo a força voltar a me erguer gradualmente. O coração ainda doía, mas havia paz também. Pude amar sem me perder, e isso era libertador.
Saí do quarto com a sensação leve, minha alma era uma pena flutuando. Meu coração estava pronto para viver, mesmo que parte dele ficasse com o fantasma que havia me marcado para sempre.
E lá fora, o mundo me esperava, com Tunico e todas as aventuras que ainda estavam por vir.
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“Se eu fosse vivo,
iria à festa de halloween comigo?”
— Gasparzinho
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O ar ficava mais fresco conforme a tarde chegava ao fim, a brisa era revigorante, me dava o fôlego de vida que tanto precisava. Por mais que eu quisesse viver o luto do fim do meu “quase-relacionamento” com Elias, a vida não permitiria. Eu tinha um encontro com Tunico e agora, mais do que nunca, quero ver o que o destino preparou para mim aqui em Capitólio.
Uma caminhonete estava estacionada logo à frente, à noite começando a pintar o céu de tons roxos e azulados. Tunico me viu e abriu aquele sorriso imenso, que aquecia meu peito de um jeito tão gostoso.
— Tarde, moça linda! — Cumprimentou, descendo do veículo.
Fiquei parada, meio sem jeito, enquanto ele me olhava de cima a baixo. O vestido abraçava meu corpo, confesso que caprichei na escolha, o modelo se agarrava aos lugares certos e parecia que eu tinha colocado um baita silicone. O vento balançava meus cabelos, na minha cabeça eu era a Beyoncé em um dos seus shows, diante de um dos seus ventiladores gigantes. E, pela primeira vez em muito tempo, eu me senti de fato bonita. O olhar dele me fez acreditar nisso.
— Que calor que sobe no coração ao te vê assim, toda pronta pra aventura. — Disse, pegando minha mão e me rodopiando com delicadeza.
— Gostou?
— Eu adoro por dimais um limãozin. — Brincou, referindo-se ao meu vestido estampado com limões-sicilianos. As sapatilhas amarelas em meus pés combinavam perfeitamente. — Ocê tá parecendo uma princesa.
Eu ri, tentando disfarçar o rubor.
— Você é um caipira muito gentil. — Pisquei os cílios para ele, sutilmente.
Tunico não resistiu: segurou meu rosto com cuidado, e antes que eu pudesse protestar, encostou os lábios nos meus. Foi um beijo doce, com gosto de promessa. Não teve pressa, só entrega.
Um (re)começo para meu coração.
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