Capítulo 14
Se é pra quase morrer, que seja épico.
– LINA, A ESCRITORA –
“Você provavelmente acha que este mundo
é um sonho bonito, mas você está errada.”
— Coraline
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A água caía com tanta força que parecia o próprio céu desabando. O som da cachoeira ecoava pelos paredões de pedra e preenchia todo o espaço, como uma orquestra da natureza afinada pelo vento. A água parecia o véu de uma noiva, era lindo demais. Os raios de sol tocavam o espelho d’água e um belo arco-íris podia ser contemplado. Eu nunca tinha visto nada tão imponente, parecia um cenário roubado de um filme de fantasia – desses que você desconfia que não existe de verdade.
Fiquei parada, de boca aberta, hipnotizada.
— Ô trem bão da gota! — Tunico exclamou, tirando o chapéu da cabeça e abanando. — E olha queu conheço cada canto de Capitói…, mas esse aqui, Lina, nunca tinha visto. Parece que a terra resolveu esconder só pra guardar pra gente.
Ele riu, encantado. O caipira desceu do cavalo e me segurou pela cintura, colocando-me no chão com uma facilidade impressionante. Carregar fardos de feno parecia a melhor academia da vida. Fiz um carinho na Rubi enquanto, sem pensar duas vezes, Tunico começou a tirar a camisa.
— Ovô entrar nessa água nem que seja agora! — Anunciou, já desabotoando o cinto. — Cê num vem, moça?
— Vai! Pode ir. — Respondi, rindo da pressa dele. — Eu vou só… ficar ali.
Me afastei, procurando uma pedra à sombra. Sentei e abracei os joelhos, observando Tunico mergulhar como se fosse um menino que acabou de achar um parquinho novo. A cena era poética – eu poderia ficar ali por horas, vendo aquele homem lindo se misturar à natureza com seu jeitinho de mato.
Até que uma sensação diferente – e familiar – me arrepiou. Passei as mãos pelos braços sentindo os pelos arrepiados por um motivo óbvio:
Elias.
Ele surgiu de repente, como uma sombra que se materializa quando a luz diminui. Estava ali, encostado na árvore ao meu lado, com os braços cruzados e expressão emburrada.
— Que bonito, viu? — Disse ele, o tom carregado de sarcasmo. — Some a noite toda, aparece de manhã com esse peãozinho… e agora fica suspirando igual donzela vendo príncipe encantado.
Revirei os olhos.
— Não começa, Elias…
— Ah, nem vem, Maria Lina. A cavalgada deve ter sido ótima. — Ele falou com os dentes cerrados, grunhindo em ódio. — O que foi? Ele passou mel no pau, só pode.
Engasguei com o próprio ar. Elias quase caiu pra frente, de tanto revirar os olhos. Se sarcasmo matasse, eu teria morrido duas vezes.
— Não torne as coisas ainda mais complicadas pra nós dois.
— Você já tá apaixonada por ele. Incrível. Será que eu sequer tive uma chance? Cheguei a ser amado? Ou fui só um fantasminha para você se divertir e depois escrever no seu livrinho…
— Nossa, Elias… — Me levantei com minha cara simplesmente em choque. — Não esperava isso de você.
Acho que ele está profundamente magoado, de verdade.
Ele ia retrucar, mas de repente levou a mão à cabeça, cambaleando um pouco. A expressão mudou de ciúme para dor – como se algo estivesse rasgando por dentro dele.
— Elias? — Me levantei num pulo, estendendo instintivamente a mão para tocar seu braço.
Ele estava fraco e a prova disso foi sua forma começando a oscilar. O corpo de Elias estava sendo consumido por luzes elétricas azuis que faziam ele ficar transparente até quase desaparecer, então piscava e tornava-se nítido de novo. Os olhos semicerrados, as mãos segurando as laterais da sua cabeça, inclinando-se de tanta dor.
— O que tá acontecendo?
— Eu… lembro… — Murmurou, a voz falhando. — Esse lugar… eu vinha aqui. Muitas vezes…
Meu coração disparou.
— Me conta exatamente do que está se lembrando.
Elias apoiou-se completamente contra o tronco atrás de si, fechou os olhos e começou a balbuciar ainda com dor.
— Meu pai e eu. Voltávamos de cavalgadas e afazeres. Banhávamos aqui.
Segurei a mão dele, tentei passar o máximo de força possível. Tocá-lo parecia ajudar. Quanto mais próxima eu ficava de Elias, mais força ele parecia ganhar para se materializar.
— Mas… tem algo a mais. Eu vinha muito sozinho… não consigo me lembrar.
— Não fica forçando tanto. Deixa vir naturalmente.
— Não tem nada natural, Lina! Tá doendo muito! Você não tem ideia do que estou sentindo.
— Não grita comigo, só estou tentando ajudar.
— Me desculpa…
Mas de certo modo eu entendia, ele estava com dor e confuso. Imagina só receber uma enxurrada de lembranças de uma só vez?
Antes que pudesse insistir, uma voz grave me cortou.
— Que diacho cê tá fazendo, Lina? — Tunico estava parado a poucos metros, com a água escorrendo pelo peito bronzeado e um olhar de pura confusão.
Ok, senhor tanquinho, não posso me distrair com isso agora.
— Quem tá gritando comcê?
— N-não é nada.
— Ah, sei. Cê tá falando… cum vento? E… tocando no nada?
Travei.
— Tunico… eu…
Ele se aproximou devagar, sem aquele ar de deboche que eu esperava. Pelo contrário: havia um cuidado genuíno no olhar dele.
— Moça, pode confiar nimim. — Ele disse, firme, apoiando a mão no meu ombro. — Cresci ouvindo história de alma-penada da minha avó. Sei que tem coisa que a gente num entende, mas existe, sô. E eu acredito nocê.
Olhei para Elias, que, ainda ofegante, assentiu com a cabeça.
— Conta tudo, Lina. Ele pode ser útil.
E então as palavras saíram: a casa, os barulhos, o piano, os objetos voando, o mapa… e Elias. Tunico escutou cada detalhe com olhos arregalados, mas sem me interromper.
No fim, ele respirou fundo e coçou a nuca.
— Eu disse quocê podia confiar, num disse? Se esse fantasma tá aqui… então deve ter um motivo. E se ele falou que tem coisa escondida nesse lugar, a gente vai achar.
Tunico se afastou para vasculhar suas roupas jogadas no chão e pegar o mapa que estava dobrado no bolso da calça, analisou por alguns minutos.
— Tá vendo isso aqui? — Tunico apontou para uma mancha borrada que parecia ter o formato peculiar de um coração. Eu já tinha notado, mas achei que era só uma mancha de caneta-tinteiro. Como se tivesse pingado ali sem querer. — Me parece o “x” da questão. Cê num acha? Isso deve significar alguma coisa.
Para mim estava marcando a cachoeira, como se fosse um lugar favorito ou sei lá. Mas Tunico via algo a mais nisso. De repente, sem dizer nada, sumiu no meio do mato ao redor da cachoeira.
Minutos longos demais se passaram e eu continuei ali, esperando. Pelo menos o fantasma já estava se sentindo melhor.
— Só espero que ele não morra tentando encontrar seja lá o que. — Comentou Elias, não ajudando em nada, só me deixando mais nervosa. Afinal, há uma chance incontestável dele ter morrido aqui.
— Tunico?! — Gritei, já imaginando os piores cenários possíveis. — Antônio?
Eu já estava ficando nervosa de preocupação. Quando planejei caminhar à sua procura, levei um baita escorregão numa daquelas pedras lisas e cheias de musgo que mais parecia puro sabão. Elias me segurou na hora com uma carranca estampada na cara.
Ótimo! Como sempre, eu tô quase “indo de arrasta” nas horas mais inconvenientes. Mas, pelo menos, eu iria morrer num lugar lindo.
— Faz o favor de não causar sua própria morte, senhorita!
— E se ele se afogar? E se tiver um assassino escondido na floresta? Aí, Elias, meu coração é fraco demais para essas coisas…
Elias apenas me abraçou, meus olhos já estavam prontos para jorrar água.
Foi quando Tunico voltou correndo, o sorriso largo iluminando o rosto.
— Achei! — Disse, empolgado. — Atrás da queda d’água… tem uma entrada de gruta escondida.
Meu coração deu um salto. Elias, mesmo ainda pálido, abriu um sorriso pela primeira vez.
E eu percebi: o verdadeiro mistério estava prestes a começar.
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