Capítulo 9
Até morto eu levo chifre.
– ELIAS, O FANTASMA –
“Tá aí duas coisas que eu não sabia:
uma que eu era corno,
outra que defunto falava.”
— O Auto da Compadecida
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Eu não precisava estar lá para saber.
O ar mudou.
Um arrepio cortou o salão vazio, e mesmo preso às paredes desta casa maldita, senti cada fibra dela vibrando com algo que não vinha de mim.
O gosto de um beijo.
Não o meu.
Fechei os olhos e tentei resistir ao instinto de sentir junto. Mas é impossível quando se é feito de nada além de sensações e lembranças. Cada batida acelerada do coração de Lina me atravessava como uma faca. Cada risada dela ecoava nos meus ossos ocos. E quando os lábios dele se colaram aos dela… juro que por um instante esqueci que estava morto.
Ardeu. Como óleo quente contra a pele.
Ela o deixou entrar em um lugar onde eu nunca poderei estar.
Fiquei vagando de um cômodo a outro como fera enjaulada, até ouvir a madeira da porta ranger. Ela voltou.
O som da respiração dela, trêmula e profunda, me guiou ao seu encontro.
E lá estava Lina, encostada à porta, deslizando até o chão como se o peso do próprio coração fosse demais para suportar. Sei como é se sentir assim: completamente apaixonado. É bom, te faz flutuar de um jeito diferente. Te leva até o céu só para poder degustar as estrelas. Pude desfrutar dessa sensação quando estava vivo. Por isso é tão injusto da minha parte tirar isso de Lina.
Posso compreender sua luta interna. E não havia o que ponderar, quando a resposta era óbvia e com sotaque caipira.
Eu não sou mais um homem – e sim uma sensação, uma memória, um eco.
Perder-se nos sentimentos e sensações que eu poderia lhe proporcionar era um erro tremendo. Se ficássemos juntos nossa realidade seria bem diferente. Lina estaria sempre sozinha e jamais poderia viver a vida que merece. Eu arrancaria essa possibilidade e um dia ela certamente se arrependeria. Eu me arrependeria de fazer isso com ela.
Todavia, sou um fantasma muito egoísta. Quis atirar vasos contra as paredes, mas contive minha ira para não a assustar.
Não era o que eu queria, afinal? Banquei o cupido e a flecha foi certeira.
Arquitetei tudo isso. Sou o maestro dessa orquestra sinfônica, droga!
Ela estava genuinamente feliz. Destruída também, mas feliz. Não que eu não pudesse trazer alegria ao seu coração, mas eram sentimentos temporários. Ela sabia que eu jamais poderia ser seu de fato. Mas com Tunico é diferente. Ele é real. Ele é uma possibilidade absoluta. É por isso que o coração dela está sangrando em dualidade.
Lina está entre o amor possível e o impossível. E como uma amante compulsiva de romances, eu sabia qual time tenderia a ganhar.
Justamente por amá-la, não poderia permitir…
E isso doía mais que qualquer corrente que me prenda aqui.
— Ele te fez sorrir… — minha voz saiu baixa, quase um sussurro arrancado do peito. Ela ergueu os olhos para mim, surpresa, como se tivesse esquecido por um momento que eu existia. — …de um jeito que nunca vou conseguir.
O silêncio pesou entre nós. Podia jurar que a culpa a atravessava, mas ainda assim, o perfume dele estava grudado nela. O calor dele ainda corria na pele dela.
Dei um passo à frente, mesmo quando minha consciência dizia para me afastar o mais rápido possível. Mesmo quando sabia que deveria deixá-la em paz.
Eu já estraguei toda a magia de Tunico. Lina murchou como flores deixadas em um túmulo. Seus olhos brilhavam para mim, mas não de fascínio, desejo ou paixão. Eram lágrimas penduradas em suas pálpebras como um pêndulo.
Me odeio por fazê-la sangrar. Não é assim que o amor deve ser.
— E-eu… E-Elias…
— Não preciso que me diga nada, Lina. Eu senti. — Toquei o ar, perto do rosto dela, sem coragem de concretizar o toque. Porque sabia que se sentisse o calor de sua pele, não poderia mais parar. — E talvez seja justo. Você é feita de vida, e eu… de ausência.
Ela mordeu o lábio, como sempre faz quando está prestes a chorar. Sim, a vi chorando na primeira noite. Nesses poucos dias juntos, pude ver cada entrelinha que compunha seu ser, como se ela fosse um livro. Eu a li profundamente, como se devora um clássico. Porque é isso que ela é para mim: uma obra-prima. A mais bela canção. Eu poderia passar a eternidade lhe compondo canções de amor.
Faço-me a pergunta decisiva: eu a mereço?
Uma só noite com Lina, e então a libertaria para sempre.
Tudo que quero é tomá-la para mim, uma última vez, mesmo que apenas em lembrança.
— Mas saiba disso… — Minha voz endureceu, como gelo rachando. — Você pode deixar que ele te aqueça. Pode se perder no calor dele. Mas ainda é por mim que você treme no escuro. Vou estar para sempre cravado na veia mais profunda do seu coração. Você pode estar molhada por ele agora, mas é meu nome que vai gritar nesta noite.
Ela me olhou, e nesse olhar havia mil desculpas não ditas, mil escolhas malditas. Não precisei que verbalizasse – eu senti.
E quando Lina sente, eu existo.
Me aproximei. O ar ao redor dela estremeceu como se fosse pegar fogo, mesmo com o frio que sempre me acompanha. Toquei seu rosto sem encostar e vi os pelos da sua pele se arrepiarem.
— Eu não devia… — Ela murmurou, a voz entrecortada, mas não se afastou.
— Então não diga nada. Só sinta.
Deslizei meus dedos invisíveis pelo contorno da boca dela. Seus lábios se entreabriram num suspiro. O corpo dela reagia a mim como se eu fosse feito de carne, de calor, de sangue. Como se eu fosse vivo.
Me abaixei até nossos rostos quase se tocarem. A boca dela implorava pela minha, e cedi, selando nossos lábios num beijo que não era físico – era alma contra alma. Um choque atravessou meu ser, como eletricidade bruta, como se por alguns segundos meu coração esquecido tivesse voltado a bater.
Ela arfou, agarrando o próprio peito como se quisesse poupar seu coração, mas não me rejeitou. Pelo contrário, se inclinou mais, querendo mais.
— Elias… — Gemeu meu nome como uma prece.
A envolvi com minha aura etérea por inteiro, tomei seu corpo com o meu, e Lina se arqueou contra mim, como se o frio fosse fogo. Minhas mãos deslizaram por suas costas, sua cintura, seu quadril, e a puxei para perto até onde meu limite de existência permitia.
Ela estava rendida por mim. E eu, condenado, perdido nela.
Afastei-me apenas um pouco, observando seu rosto ruborizado, os lábios molhados pelo desejo que eu mesmo havia acendido.
— Ele pode te dar o mundo lá fora… — Sussurrei, a voz embargada. — Mas só eu posso tocar sua alma.
Os olhos dela tremeram, divididos entre culpa e rendição. Mas quando sua mão se ergueu e atravessou meu peito, pousando onde meu coração não batia… eu soube.
Ela não resistia. Nunca resistiria.
Ela é minha.

O corpo dela estava entregue, e eu não precisava de permissão – já tinha o coração dela, mesmo que dividido.
Meu beijo se aprofundou, e dessa vez não foi só alma contra alma. Projetei toda a minha essência, toda a energia que me mantinha aqui, e Lina gemeu como se eu a tivesse incendiado por dentro.
Seus dedos me agarravam e eu sentia cada toque, cada unha fincada em mim. Meu peso não era físico, mas quando a pressionei contra a porta velha, ela arfou enquanto meu corpo esmagava o dela. Nunca me tornei tão físico como fantasma, como agora. Mas entendo que isso só é possível, porque Lina me ouve, ela acredita em mim, ela me vê.
— Eu não devia… Eu não devia… — Ela murmurou, grogue de desejo, mas sua boca já buscava a minha outra vez.
— Não lute, minha querida. — Minha voz era um sussurro entre mortal e maldição. — Eis o que vai acontecer… — Segurei seu rosto para que ela olhasse em meus olhos. — Vou te ter pelo menos essa noite. Hoje você é minha! Vou te marcar com meu nome. Vou me enraizar no seu corpo. E depois, te faço a promessa que insulta a minha honra: te deixarei partir para onde bem entender.
— Elias… — Ela chamou, chorosa.
— Shh. — Calei seus lábios depositando meu indicador sobre eles. — A escolha é minha, Lina.
Minha boca desceu por seu pescoço, fria e quente ao mesmo tempo, deixando rastros de arrepios que a fizeram arcar o corpo inteiro. O som do suspiro dela ecoou pela casa vazia, e foi como um chamado – meus sentidos ficaram cegos para tudo, exceto Lina.
Quanto mais seu coração bombeava sangue em meu nome, mais seu calor me tornava físico. Tomando-a para mim, eu já não era mais uma figura etérea.
Minha mão atravessou o tecido da sua blusa, não como carícia leve, mas como se a tocasse por dentro; pele contra pele, nervo contra nervo. Agarrei seus seios como se fossem minha propriedade, deslizei meus dedos frios em seus mamilos. Ela arqueou, gemendo alto, como se cada ponto onde a tocava fosse puro fogo.
— Elias… — Meu nome escapava dela entre soluços de prazer e desespero. — Você está quente… não há mais frio.
Não pude respondê-la. Tomei seus lábios mais uma vez – já inchados pelos meus beijos ferozes. Passei por ela inteiro, fazendo seu corpo tremer como se fosse meu. Ela nem percebeu quando suas roupas foram ao chão. Estávamos dançando valsa pela casa, completamente nus. Como o papel de um bom cavaleiro, guiei minha amada pelos cômodos e a debrucei sobre o piano.
— Devo fodê-la com força ou ternura, mademoiselle?
Ela deu risada e mordeu os lábios.
— Me coma como mereço, mon seigneur.
— Será um prazer imenso.
Tomei-a com força, penetrando sua fenda encharcada de uma só vez. Lina gritou e revirou os olhos insanamente. A energia entre nós explodiu, uma mistura de frio cortante e calor abrasador. Ela agarrou meus ombros e puxou-me para mais perto, o corpo dela se contorcendo sob meu domínio.
— Ah, deus, você é tão gostoso! Como pode um fantasma ser tão delicioso? — Balbuciou, atordoada pela névoa de prazer.
Quando deslizei minha boca até seus seios, senti seu coração disparar como se fosse o meu. Ela gemeu alto, desesperada, as mãos agarradas ao meu cabelo.
A cada movimento, eu roubava pedaços dela – o ar, o controle, a razão. E, no fundo, eu sabia: estava roubando mais que isso.
Estava roubando sua alma.
Afastei a boca por um instante, encarando-a, os olhos dela enevoados de desejo.
— Lina… se eu continuar, você não vai me esquecer nunca mais. Vai me carregar aqui dentro, como uma marca.
Ela mordeu os lábios, vermelha, a respiração em soluços, os gemidos sôfregos. E, mesmo com os olhos marejados que denunciavam a confusão de sentimentos que causei dentro dela, ela assentiu.
— Então me marca, Elias. Pois eu não quero te esquecer.
E naquele instante, não havia mais fantasmas, nem cowboy, nem mundo lá fora. Só nós dois, queimando de dentro para fora em meio a uma casa caindo aos pedaços.

Era quase manhã quando exausta, Lina adormeceu em meus braços. Perdi a conta de quantas vezes fomos ao ápice juntos. A casa estava uma tremenda bagunça, nós fizemos um mini tour pela mansão sombria.
Meu local favorito foi a escrivaninha do meu quarto. Lina disse que queria ser comida como nos livros eróticos que lia, onde a mocinha se envolvia com o chefe. Joguei tudo no chão para depositá-la sobre a mesa. Caramba, só de lembrar, meu amigo aqui embaixo fica grandão de novo.
Essa era nossa única noite e ela fez questão de se esforçar para aproveitar cada segundo. Mas estava exaurida. O passeio por si só já era cansativo, depois mais uma sessão insana de sexo, não sei como ela aguentou.
Carreguei seu corpo até o quarto, a coloquei sobre os lençóis limpos. Fiquei parado, à beira da cama, observando Lina dormir. Tão viva, tão quente, tão real. O peito subindo e descendo no ritmo calmo do sonho, os lábios ainda entreabertos, inchados dos meus beijos.
Me ajoelhei ao lado dela e passei a mão pelo ar, quase tocando seu rosto. Senti o frio da minha essência roçar contra a pele dela, e vi os pelos de seu braço arrepiarem, ainda que adormecida.
— Agora você me carrega aí dentro, Lina… — Sussurrei. — Sou sua cicatriz.
Sabia que quando ela acordasse, o sol entraria pela janela e me lembraria do que eu não sou mais. Ela iria pensar em Tunico, no mundo lá fora, no que é possível. Mas quando fechasse os olhos… seria eu. Sempre eu.
Porque esta noite não a prendi.
Eu a marquei.
E mesmo que eu a deixe ir, ainda que ela escolha viver, jamais se livrará de mim.
Eu sou o fantasma no coração de Lina.
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“Daria tudo para poder tocá-la
só mais uma vez.”
— Ghost: Do Outro Lado da Vida
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