Capítulo 18

Sem Samara saindo do poço (finalmente!)

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“Que direito você tem de estar feliz? É pobre, esqueceu?”
— Os Fantasmas de Scrooge

 

 

O céu chorava junto com a típica tempestade de verão que desabava em Capitólio. Não é verão de verdade sem tempestades torrenciais. E eu venho tentando compreender como é existir sem a companhia de Elias.

Era trágico e poético, como Taylor cantando “How Did It End?”

Pingos grossos caíam sobre o caixão simples, coberto de flores brancas. A família inteira de Seu Noberto estava presente – filhos, netos, todos de olhos marejados. Era impressionante ver como, mesmo diante da tragédia, o amor da família erguia uma muralha contra a dor.

Eu tremia por dentro quando pediram para que eu dissesse algumas palavras. Fui a única ali que de fato conviveu com Elias nesses últimos tempos. Respirei fundo, sentindo o nó na garganta, e então, deixei o coração falar.

“Elias não foi apenas um nome sussurrado pelo vento…
Ele foi riso, foi dor, foi coragem.
Foi um coração que bateu tão forte,
que mesmo depois do silêncio, ainda ecoa.

Ele me ensinou que ser visto não depende de olhos,
mas de alma.
Me mostrou que até na escuridão há música,
e que até fantasmas sabem amar.

Elias não se despede.
Ele se transforma.
Em memória, em palavra, em história.
E enquanto houver alguém que o lembre,
ele não partirá.

Hoje, não enterramos um fantasma.
Hoje, eternizamos um homem.
Um homem que viveu, que amou,
e que deixou em cada um de nós um pedaço da sua luz.

Obrigada, Elias…
por existir para além da vida,
e por me ensinar que o amor não se perde

– ele encontra novas formas de permanecer.”

Olhei para o caixão e toquei o colar em meu pescoço. Meus olhos marejaram e a voz se desfez num sussurro:

— Adeus, Elias.

Eu vou continuar aqui. Exatamente onde você me deixou.

Um silêncio pesado se espalhou, quebrado somente pelo choro contido da família. O céu pareceu se abrir por um instante, como se o próprio universo estivesse ouvindo.

 

 

O tempo passou.

Fiquei ainda alguns meses na casa, mesmo me sentindo sozinha. Seu Noberto insistiu para que ficasse. Eu já não queria mais o dinheiro, mas ele disse que era o mínimo que poderia fazer por mim. E a verdade era que eu queria sair correndo dali, não por medo de fantasmas, mas pela falta deles.

Precisei reunir muita coragem para ficar, meu maior interesse agora era escrever o livro de Ester e Elias. O casarão parecia o cenário apropriado para isso. Afinal, quantos escritores recebem a dádiva de escrever no local dos seus livros?

A casa, sem Elias ao piano, parecia mais assombrada do que nunca. Mas ainda assim, consegui escrever o livro: O Fantasma em Meu Coração. Nele, contei a história de Ester e Elias, para que o amor deles nunca fosse esquecido.

Ter Tunico ao meu lado, fazendo de tudo para preencher o vazio com sua presença carinhosa, foi o principal motivo de continuar de pé. Eu estava de luto. Um luto doloroso e profundo pelo amigo e o amor que perdi. Então despejei tudo no livro, fazendo minha escrita sair pelos dedos, teclando a velha máquina de escrever abandonada na casa, deixando meu coração queimar para fora de mim por meio de palavras. Eu ressuscitei, invoquei e chorei por Elias em cada parágrafo.

Meu fantasma me presenteou com tanta coisa. E uma das lições mais valiosas foi sobre o amor.

O amor não desaparece quando as coisas mudam (ou quando uma pessoa parte). Ele se transforma…

Pode virar memória, quando alguém que amamos já não está fisicamente aqui, mas seguimos lembrando e sentindo essa presença.

Pode virar gratidão, quando um relacionamento acaba, mas fica a lição ou o carinho.

Pode virar esperança, quando o que se viveu impulsiona a continuar.

Pode até virar outro tipo de amor, como amizade, cuidado ou inspiração.

É uma forma poética de dizer que o amor é energia – e energia não se destrói, só se transforma.

Pensar dessa maneira trazia um conforto imenso para meu coração. Eu amava relembrar de Elias dessa forma.

Muitas vezes eu cavalgava até a cachoeira com Rubi e passava horas escrevendo ali, ouvindo a água cair como se fosse uma trilha sonora só minha. Lá se tornou meu lugar favorito. E num certo dia, algo peculiar aconteceu… avistei a raposa-vermelha que Elias mencionou certa vez.

Ela passou correndo pela beira do lago, parecia um raio laranja. Tentei correr ao máximo para segui-la, mas ela desapareceu em meio às folhagens verdes. Meu coração disparou de um jeito que nunca senti antes, como se fosse explodir.

Fiquei com uma pulga atrás da orelha. Não tem raposas-vermelhas no Brasil. Aqui em Capitólio só tem lobo-guará. Será que é um filhote? Ou será minha imaginação? Me senti como Alice indo atrás do coelho. Mas Elias não teve um final feliz caindo em sua toca…

Resolvi deixar a raposa de lado. Vê-la já era um presente. Assim como as capivaras que certa vez peguei banhando-se na lagoa da cachoeira. Os filhotinhos são tão fofinhos. A natureza com sua grandeza estonteante virou inspiração para escrever.

Pouco a pouco, o casarão foi mudando também, o pó foi dando lugar a um ar aconchegante. As paredes ganharam vida nova, ainda que às vezes eu me pegasse falando sozinha com elas, como se Elias estivesse por perto.

E talvez ele estivesse mesmo…

No meu coração. Eu tinha certeza disso.

 

 

Molly: “Sam, pode me sentir?”
Sam: “Com todo meu coração.”
— Ghost: Do Outro Lado da Vida

 

 

Eu já estava planejando voltar para Belo Horizonte quando Seu Noberto pediu para me encontrar. Estava sério, mas com aquele olhar bondoso de sempre.

— Lina… — Começou, com cuidado e carinho. — Como tem passado?

— Estou bem, e o senhor?

— Melhor do que nunca. Você libertou meu coração de um jeito que não consigo pôr em palavras a gratidão que sinto. — Foi quando ele me entregou um envelope. — Espero que isso ajude… Meus avós, os pais de Elias, sempre tiveram um desejo. Eles queriam que quem descobrisse o paradeiro do meu pai, ou desvendasse o mistério da casa, recebesse a fazenda. E hoje, esse lugar passa a ser seu.

Ele me entregou a escritura. Meus olhos não acreditaram no que viam.

Eu, uma pobretona, escritora falida, afogada em dívidas até o pescoço, li meu nome naqueles papéis.

Pensei que fosse cair durinha ali mesmo, diante dos pés do seu Noberto.

— Mas…, mas eu? — Balbuciei, sem acreditar. — Seu Noberto, isso é loucura!

— Loucura é aceitar morar numa casa assombrada, Lina. Ver fantasmas e não sair correndo. E entrar numa gruta perigosa só para libertá-lo. — Ele deu risada. — Agora essa terra é sua, você a merece. É um presente da família, em nome da memória de Elias.

As lágrimas desceram sem pedir licença. Eu nunca me senti tão honrada – nem tão assustada com a dimensão da responsabilidade.

 

 

“Era uma lenda. O que acontece é que algumas lendas são verdadeiras.”
— Motoqueiro Fantasma

 

 

Tunico estendeu a toalha quadriculada bem na margem da cachoeira, sob a sombra generosa de uma árvore que parecia abraçar o lugar inteiro. E mais uma vez ele me surpreende com suas cestas caprichadas – embora eu já tenha conhecido as mulheres com mãos de fadas que as preparavam. Ele colocou pão de queijo quentinho, frutas frescas e uma garrafa de suco. Eu ri, balançando a cabeça.

— Você vai me engordar desse jeito, sabia? — Provoquei, mordendo uma uva.

— Uai, mas só vai ficar mais gostosa do que já é, minha cabritinha. — Ele respondeu, abrindo aquele sorriso que fazia o mundo parecer menos pesado. — Nunca ouviu dizer que engordamos o bicho pra depois cume?

— Que horror, Antônio! — Bati no braço dele, que jogou a cabeça para trás, rindo.

— Ocê é linda de qualquer jeito, meu docinho de mel. — Tunico envolveu minha cintura e me beijou com carinho. — Num vejo a hora de te chamar de minha esposa.

O anel em meu dedo brilhou sob o toque dos raios de sol.

Estamos noivos! E acho que nunca me senti tão feliz e completa antes.

O pedido foi feito nas alturas em um passeio de balão que Tunico me levou. Foi a coisa mais linda que já vivi na vida. A experiência é surpreendentemente tranquila, a vista de Capitólio lá do alto era de tirar o fôlego. Nós dois, Paulina (que ficou responsável por gravar tudo com suas mãozinhas pequenas e hábeis para tecnologia, o olhar brilhante de emoção esperando minha resposta) e o piloto, a brisa fresca e o céu sem limites.

Distraída com a beleza do sol nascendo no horizonte, não me dei conta que Tunico se ajoelhou e abriu uma caixinha de veludo com um anel no centro.

Meu coração explodiu. E é claro que disse sim. Era tudo que eu mais queria.

Tunico é o homem dos meus sonhos. A minha alma gêmea.

O Elias da minha Ester.

Sentamos ali, só nós dois, com a sinfonia da água caindo como trilha sonora, outrora com Tunico tocando violão suavemente. O sol brincava de refletir nas gotas suspensas, criando pequenos arco-íris que dançavam no ar. Rubi pastava tranquilamente por perto, e por um momento tudo estava… perfeito.

Tunico estava nadando e eu fazendo anotações de um novo livro que já nascia dentro de mim, quando comecei a sentir um arrepio profundo que fez minha alma estremecer. Meus olhos rolaram por todo o local, procurando por sua presença gélida, o coração na boca, já premeditando sua aparição.

— Elias? — Sussurrei para o vento, minha garganta sufocada por um nó, lágrimas ameaçando desabar de meus olhos.

E foi então que os vi.

Elias e Ester.

Caminhando lado a lado pela margem da cachoeira, mãos entrelaçadas, sorrisos serenos. Ester trajava um lindo vestido antiquado de cor azul. Elias em seus típicos trajes sofisticados.

Ele olhou em minha direção e não precisou dizer nada. Os olhos dele diziam tudo.

Eles estavam em paz.

Eles estavam juntos.

O nó na minha garganta se desfez em um sorriso emocionado. Fechei o caderno devagar e murmurei a nossa promessa como uma prece. Só para ele, só para nós:

— A gente vai se ver novamente. Quando a marca que deixei no teu coração reencontrar as cicatrizes do meu…

Tunico que havia voltado do seu banho, me abraçou sem entender direito, mas me aconcheguei ali, sentindo pela primeira vez o peso no peito se transformar em leveza. Porque agora eu sabia.

A única coisa que resiste entre a vida e a morte: é o amor.

Agora que o fantasma me pagou tudo que devia, era hora de seguir em frente. Sob a luz dourada do entardecer pintando a cena e o riso de Tunico se misturando ao som da cachoeira, tive certeza: eu também estava pronta para viver.

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