Capítulo 2

Pelo dinheiro eu dou a minha vida (graças a Deus).

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“Eu sou um mestre do susto, um demônio da luz.
E vou te assustar para fora das suas calças.”
— O Estranho Mundo de Jack

 

Assim que cruzamos o portal da entrada, a porta bateu com um estrondo atrás de nós.

Eu gritei. Tropecei. Quase derrubei um quadro enorme de um homem sério de bigode. O quadro, claro, caiu sozinho, segundos depois se estatelando no chão.

Seu Noberto apenas sorriu.

— Tá vendo? Já tão querendo te dar boas-vindas.

Por dentro, a casa era ainda mais sombria: móveis cobertos de pó, cortinas rasgadas e lustres balançando sozinhos. Um piano desafinado parecia respirar quando passei perto.

Após uma apresentação rápida, aceitei o molho de chaves da casa, minha palma tremia incontrolavelmente. Que exagero da minha parte, eu nem tô com medo…

— Tenho a sensação de que a senhorita vai adorar a biblioteca desta casa. Depois dá uma olhadinha, tem livros dos antigos donos e mais uns outros que achei por aí. É que o pessoal geralmente não tem costume de ler.

— Ah, sei bem disso. E o senhor tem toda razão quanto a eu gostar de bibliotecas. — O fato de ter livros na casa era um alívio tremendo, já tornou as minhas chances de estadia 99% mais feliz. Bastava ignorar os fantasmas ocupando minha mente com leitura.

Depois, seu Noberto me explicou que um solícito vizinho passaria todos os dias com mantimentos. A limpeza e a ordem da casa são por minha conta e, que poderia ficar à vontade, como se a casa fosse minha. Eh, obrigada… eu acho?

E depois me lembrou rapidamente da minha função aqui, sou como uma zeladora. Tenho que garantir que a casa está segura, digo, com relação a intervenções externas: invasões, roubos, etc. Tranquilo. Mas uma dúvida rápida aqui: quem me protege?

Por fim, Seu Noberto me deixou sozinha.

— Com licença, senhores fantasmas, que tal a gente estipular umas regrinhas? Eu não incomodo vocês e vocês não me incomodam. Assim coexistimos felizes. Temos um trato?

A resposta que recebi foi do estalo do chão de madeira velha que me fez dar um pulo.

 

“É horrendo!
É horrível!
É o nosso lar!”
— A Família Addams

 

 

O silêncio caiu sobre a casa como um cobertor pesado.

Desfiz as malas no que considero ser a melhor suíte do casarão. Afastei as cortinas empoeiradas, que quase se desfizeram em minhas mãos. Descobri, então, que não conseguiria abrir a janela emperrada. Ótimo! Sem ar-condicionado, sem vento, apenas calor infernal. Bem feito para mim.

Me joguei na cama e uma nuvem de poeira se levantou, fazendo-me tossir como uma velha fumante. Segurei o choro com todas as forças – não por coragem, mas por orgulho tolo. Eu não podia me dar ao luxo de desabar, não depois de aceitar viver numa casa mal-assombrada só porque fracassei em tudo o que sonhei.

Olhei pra mim mesma e senti vergonha: livros que se acumulam no pó enquanto o banco liga pro meu telefone impiedosamente. Para completar só tive relacionamentos com homens tóxicos, um belíssimo dedo podre para homens.

O sonho de ser escritora cobrava cada vez mais caro. E não consigo não me amaldiçoar por ter um talento que não enche minha barriga. Agora, me prendi dentro dessa casa cheia de assombração, tentando bancar a durona enquanto, por dentro, implorava para não afundar de vez.

Achei que lágrimas tivessem molhado meu rosto e escorrido até o ouvido – fingi que não as sentia, como se as ignorar fosse prova de algum tipo de força.

Do corredor, passos ecoavam cada vez mais altos, firmes, quase rindo da minha desgraça. Uma janela bateu. Risadas longínquas ecoaram no andar de cima – ou talvez fosse só o vento, tentei me convencer disso.

Cruzei os braços, tô sem saco para alma-penada engraçadinha.

Cara, minha vida tá tão ferrada, você acha mesmo que um sustinho desse vai me fazer sair correndo? Melhore, senhorita assombração, apenas melhore.

— Se for fantasma, já aviso: pega uma vassoura e ajuda na faxina.

Mas, no fundo, sabia: era mais provável ser a vida zombando de mim do que algum Gasparzinho, e essa humilhação não dava para ignorar.

O fundo do poço é logo aqui. Venham todos. Está acontecendo de novo. Como a Maria Lina vai acabar dessa vez?

É como Alicia diz: “Você deve estar sentindo saudades do CAPS…”, tá, não precisamos mencionar esse evento catatônico na minha vida agora.

Puxei o lençol e fechei as pálpebras.

O problema é que, mesmo de olhos fechados, eu tinha a clara sensação de que não estava sozinha. E poderia jurar que antes de me entregar ao meu subconsciente, senti o colchão afundar bem ao meu lado.

 

 

“Se soubesse que você estava chegando,
teria arrumado a masmorra.”
— A Família Addams

 

Não iria rolar ficar presa na minha suíte-fortaleza, percebi que a casa não estava disposta a me dar paz nem por um segundo. Já foi surpreendente o fato de conseguir dormir até 10 horas da manhã, devo ter o sono mais pesado do que o entusiasmo desses fantasmas e, olha, só para constatar, eles estavam se empenhando horrores.

Uma cesta de café da manhã caprichada foi deixada em minha porta, assim como Noberto me avisou. Tinha pão de queijo quentinho, broa de fubá, bolo de milho, goiabada cascão, doce de leite, queijo canastra, café moído fresco; um mix de frutas essenciais, além de marmitas já prontas para as refeições principais. Seja quem for que cozinhe, claramente tem mãos de fada e o toque mineirinho que amo. Nunca me senti tão feliz ao me empanturrar de tanto carboidrato e açúcar.

No segundo dia já soube: a casa não me deixaria em paz. Começou quando a porta do armário da cozinha se fechou bruscamente assim que demonstrei intenção de fechá-la, fazendo o móvel todo tremer. Suspirei, rolando os olhos:

— Deve ter sido o vento… ou um fantasma…, mas vamos de vento mesmo.

Pelos 50 mil, eu dou minha vida, senhor fantasma. Então pode mandar ver que daqui não saio, daqui ninguém me tira.

Na minha mala jogada no chão do quarto, uma aranha-caranguejeira resolveu que seria o lugar perfeito para ser sua casinha. Levei um susto quando fui pegar uma toalha e ela deu um salto (também assustada pela invasão). Pulei, dei um grito em volume moderado, e logo racionalizei: Ok, provavelmente ela já morava aqui antes de eu chegar. Sou a ameaça, estou invadindo o habitat dela.

Pois que fique com a mala, eu levo minhas coisas de volta na sacola se for preciso. Só não saio da casa e deixo ela inteirinha para a Sr.ᵃ Aranha, porque preciso muito dessa grana. Toda hora repito isso, né?

— Acho que é pra deixar bem claro o quanto estou ferrada.

Enquanto vasculhava os arredores do casarão quase caí dentro do poço, posso jurar que alguma coisa tentou me empurrar, ou melhor, “me cumprimentou” com uma cotovelada invisível. Saí de ré, Samara!

Depois, um espelho lindo e vintage, com bordas douradas, caiu com estrondo quando eu estava visitando um dos quartos da casa.

— Aí, seu fantasma, na moral, quebrar coisas super caras não é legal. Poxa, que desperdício! — Reclamei enquanto juntava os cacos com uma vassoura cheia de buracos de cupim e torcendo para não levar nenhuma picada. — Se eu vendesse esse espelho já pagava umas três contas atrasadas…

Outrora, o rádio ligou sozinho e Elvis Presley começou a cantarolar “Can’t Help Falling In Love”. Um arrepio gélido subiu por minha espinha e arrepiou até os meus pelos mais íntimos. Não sei se você pescou a referência, mas eu sim. Deixe-me te contar: Invocação do Mal. A cena tocante onde Ed Warren a canta para Lorraine, mostrando a força e o amor que une o casal.

Ótimo! O meu fantasma é todo culto, atualizado e cheio de referências cômicas. Pelo visto tem tempo de sobra para assistir TV. Que hilário! Confesso que me surpreendeu.

— Engraçadinho, hein! — Praguejei para as paredes, irritada e desligando o aparelho vintage e cheio de pó com um ódio que só.

Deixando as implicações de lado, o melhor tesouro do casarão foi fácil de achar: uma biblioteca abarrotada de livros. Eu já estava mergulhada até o pescoço em O Alquimista” quando um rato passou correndo por trás da minha poltrona. Só senti o ventinho na minha nuca. Bati palmas na frente do nada:

— Rato? Se é você, me dá oi direito!

E ele deu.

Livros caíram da estante. Na verdade, um montão deles foram atirados feito pratos do tiro ao alvo. Aí, meu deus, quando é que vim parar num dos filmes dos Warren?

— Minha santinha protetora das estabanadas. — Dei um pulo da poltrona, fechei os olhos e uni as mãos em prece. — Ok! Ok! Vocês venceram! Pelo visto nada de trato entre nós, né? Por que não me deixam em paz!?

Mais livros são arremessados, dessa vez me encolho com os braços em volta da cabeça quando eles passam raspando por mim. Meu coração dispara, sinto um nó apertar minha garganta.

Bom, isso é um progresso, não é? Confrontar gera ação. E que ação! Bem direta, eu diria. Com intenções claras contra minha vida.

Semicerrei os olhos observando cada canto da biblioteca empoeirada, resgatei o exemplar que deixei cair no chão. Apertei o livro contra o peito como se fosse um escudo. Respirei uma, duas, três vezes bem profundamente. Minha mente criativa começou a ponderar…

O que eles querem comigo? Essa pergunta me cutucou o nervo.

A verdade é que não queria ser mais uma que aceitava o emprego e em poucas horas já saía correndo. Se tem algo nessa casa, então tem um motivo. Talvez, só talvez mesmo, eu esteja começando a ponderar sobre o mistério e não só o dinheiro.

Me lembrei de Gasparzinho, vivia vendo o filme quando era criança. E ele dizia: “Os fantasmas não machucam, são apenas espíritos com assuntos não resolvidos.”

Uma lâmpada se acendeu na minha cabeça!

Talvez essa fosse a resposta…

Não era só a casa que parecia brincalhona; algo mais estava tentando chamar minha atenção. Cada estalo no piso, cada sombra que se movia fora do lugar, cada sussurro quase inaudível parecia formar uma mensagem a ser decifrada.

Eu sabia que estava ficando meio louca, mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim – talvez minha veia de escritora curiosa, ou a eterna investigadora de casos misteriosos – me dizia: tem alguém aqui tentando se comunicar. Ouça.

Então comecei a interagir com a casa de um jeito quase ritualístico.

— Tá bem, quem quer me dizer algo? Eu tô ouvindo, hein. Pode falar, pode se mover, só não vale tentar contra minha vida. Afinal de contas, morta não consigo ajudar ninguém.

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