Capítulo 17

O último beijo de outro mundo (sem garantia de reembolso)

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“O amor que você leva é o amor que você deixa.”
— Ghost: Do Outro Lado da Vida

 

 

Ainda enrolada no cobertor, despertei com um toque suave no ombro. O silêncio da noite na casa mal-assombrada era quase palpável, quebrado somente pelo leve suspiro de Tunico dormindo ao meu lado.

— Acorda, Lina, vista um casaco e me acompanhe. — A voz de Elias parecia flutuar, doce e brincalhona, como se misturasse ao meu sono pesado.

Eu me sentei, com o coração já acelerado.

— Aconteceu alguma coisa? — Sussurrei.

— Nada aconteceu, ainda.

Revirei os olhos.

— Só você pra me acordar no meio da noite. Por que mesmo?

— Depois você vai me agradecer… só confia em mim, moça.

Contra minha vontade, obedeci. Levantei e vesti o robe por cima da minha camisola. Calcei as botas às pressas, dei uma última conferida em Tunico, que estava mergulhado em sono profundo. Ele ficava tão fofinho dormindo.

Tunico fez questão de não me deixar sozinha depois do que aconteceu na gruta. Tivemos que prestar depoimento para a polícia – óbvio que ocultando toda a história de fantasma por trás, não quero que me internem novamente. Também fomos entrevistados por jornais e viramos até notícia.

Agora eles só precisam descobrir se os ossos são mesmo do Elias para então enterrá-lo de vez. Por falar nele, se comportou direitinho, deixando o caipira ficar aqui comigo. Mesmo com o fantasma ainda me rondando, eu não tinha condições psicológicas de enfrentar as noites solitárias na mansão mal-assombrada.

— Vem logo! — Elias me puxou pelo braço.

Cautelosamente saímos para o lado de fora. A lua tingia tudo de prata, refletindo nas poças e nas folhas molhadas pelo sereno, como se a mata tivesse acordado só para nos observar. Elias trazia consigo um lampião que espalhava um círculo quente de luz.

— Pegue o cavalo de Tunico. — Disse ele, sério, mas com um brilho travesso nos olhos.

— É o quê? Ficou louco de vez? — Cruzei os braços igual criança birrenta.

— É isso mesmo que ouviu, senhorita.

— Eu não sei cavalgar.

— Ah, mas sabe sim. — O olhar de Elias exibia outras intenções.

— Não gostei nenhum pouco da piadinha, fantasminha sem graça. — Dei passos duros até a Rubi e então subi prontamente. — Quando é que você vai me deixar em paz, hein? — Brinquei, mas Elias não respondeu.

O fantasma juntou-se a mim no lombo do cavalo, segurando minhas mãos sobre as rédeas, nos conduziu com cuidado. A cada passo, o chão úmido soltava o cheiro da terra fresca. Vaga-lumes piscavam como minúsculos holofotes dançantes. O coaxar dos sapos e o canto dos grilos criavam uma sinfonia noturna. Uma coruja silenciosa sobrevoou nossas cabeças, majestosa, observando-nos como uma guardiã da floresta.

Parecia uma cena dos livros das irmãs Brontë: eu em um pijama branco, no lombo de um cavalo, fugindo noite adentro com meu amado.

Uma pena que essa nunca seria a nossa realidade.

Reconheci o caminho, estávamos indo em direção à cachoeira.

— Se você está planejando me xuxar dentro daquela gruta de novo, pode dar meia-volta. Lá eu não entro nunca mais!

— Ei, confia em mim. — Solicitou com gentileza. — Prometo que não vou te pedir pra entrar lá de novo. — Ele riu suavemente.

— Sério que isso é reconfortante? — Tentei brincar, tremendo, mas sorrindo a todo custo. — Ainda estou processando a ideia de cavalgar sozinha na escuridão.

— Olha pra você, toda corajosa! — Respondeu ele, rindo, e o som da risada se misturou ao dos insetos da mata, tornando tudo mais leve.

O caminho para a cachoeira parecia vivo. Cada folha refletia a luz da lua, cada poça brilhava como prata líquida. O lampião tremeluziu nas minhas mãos, revelando pequenos detalhes: o brilho úmido das pedras, flores escondidas na mata, o reflexo da lua na água corrente – uma das cenas mais lindas que nós humanos podemos contemplar.

Quando descemos do cavalo, Elias desapareceu. O que esse fantasma está aprontando? Caminhei cautelosamente até o espelho d’água.

— Elias… — Sussurrei, sentindo o coração apertar.

Ele surgiu diante de mim com o olhar iluminado e cintilando sua luz-azul fantasmagórica.

— É hora de nos despedirmos, mon amour.

Prendi a respiração. O mundo parou. Tudo ficou silencioso demais. Meu coração estava sendo esmagado dentro do peito.

— Eu só estava brincando, Elias. Não quero que vá embora.

— Sei que era brincadeira. A verdade é que só estava esperando o momento certo para deixá-la. Eu poderia ter ido embora depois da gruta, mas quis me certificar que você estava bem… e bom, digamos que como cupido eu arraso.

— Como assim cupido? — Estreitei os olhos.

— Tunico não te chamou naquele dia. Menti porque queria juntar vocês dois e… funcionou até demais. — Elias riu sem graça.

Eu já sabia que tinha dedo do fantasma na situação, mas ter certeza de suas intenções me deixou um pouco abalada. Elias já havia decretado nosso fim antes mesmo de me verbalizar a decisão. Imagino o quanto tenha sido difícil para Elias me entregar nas mãos de outro homem quando tudo que ele queria era ficar comigo.

Mas a vida tem dessas coisas. Elias pertencia a Ester. E eu… bom, eu acho que tô descobrindo se o meu cantinho é nos braços do Chico Bento – gourmet version.

— Você não existe…

— Não mesmo… — Agora ele riu alto.

Baixei a cabeça, sentindo que a qualquer momento começaria a chorar. E eu não queria chorar, que droga! Mas nada me preparou para isso… me despedir de Elias. O meu fantasma. Tudo que a gente viveu foi tão especial. Foi melhor do que a companhia de muitos que já passaram na minha vida.

Elias marcou meu coração de um jeito tão profundo que é irreparável.

— Falando sério… —  Ele respirou fundo. — Acho que agora entendo porque você foi a única capaz de me ver. — Começou com a voz embargada. — Você, Maria Lina, foi a única que acreditou em mim. Que me ouviu. E agora que te conheço, posso compreender o motivo. Você sabe o que é não ser lida. Assim como sei o que é não ser ouvido.

Minhas lágrimas ameaçavam escapar, mas mantive o olhar firme, ouvindo-o atentamente.

— E você… — continuou, intenso e suave — tem um talento imensurável. Não desista do seu sonho de ser lida. Eu vi o livro que você começou, a história de Ester e eu.

— E-eu não tava planejando publicar, era só… um rascunho.

— Um rascunho com muito potencial, eu diria. — Elias sorriu, ali segurando minhas mãos, eu sabia que não teria forças para lhe dizer adeus. — Agora, essa história é sua. Para eternizá-la como quiser.

— Mesmo depois de fantasmas, sexo com defunto, sapatos voadores, ossos e grutas assassinas? — Tentei brincar só para não cair no choro, apesar da voz trêmula denunciar meu estado emocional.

— Principalmente por isso. — Respondeu ele, sorrindo.

Receber a história de Elias era um presente inestimável. Me senti tão honrada por isso.

O silêncio caiu como um cobertor denso e suave. Correndo o risco de ser muito clichê, eu queria dizer que o amava. Mas acho que isso já era nítido para nós dois.

— Elias?

— Sim, mon chéri.

— Eu vou sentir tanta sua falta. — O nó na minha garganta estava apertando tanto que minha voz quase não saiu.

Eu já não sabia mais quem era Maria Lina sem Elias. Era como se ele tivesse se tornado um anexo do meu corpo. Por todo esse mês, meu fantasma esteve ali comigo como uma sombra. Meu amante. Meu melhor amigo. Meu tudo.

Ter dependência emocional é uma droga. Você se pega aprisionado a tudo, até mesmo aqueles que deveriam partir. Seja por bem ou por mal.

Os olhos deles brilharam para mim e gentilmente senti seus braços me rodearem.

— Eu também vou sentir a sua, mas sabe de uma coisa?

— O quê?

— Eu te marquei, lembra? — Assenti fraquinho, a primeira lágrima rolando por minha face. — Se tem um lugar que as pessoas que se foram podem viver para sempre, é no coração.

Eu o amo. Amo demais. Amo com toda a minha alma. E vê-lo partir é um misto de alívio e uma dor insuportável. Elias, o meu fantasma, o meu amor de verão assombroso.

— Quero que fique com isso. — Cautelosamente ele tirou algo do bolso de sua calça. Um cordão dourado com um anel roxo como pingente. Reconheci a joia de imediato. Era o anel que ele usava. Uma ametista. — Encontrei essa pedra na primeira vez que descobri a gruta. Transformei em anel. E agora, quero que lhe pertença.

— Elias… é lindo! — Meu coração disparou quando ele se colocou atrás de mim e circulou a corrente fria pelo meu pescoço. Após fechar o colar, ele voltou para admirá-lo, agora em meu corpo.

Elias segurou meu rosto com tanto cuidado e carinho, fechei os olhos para apreciar seu toque frio uma última vez. Senti quando seu rosto se aproximou do meu. Senti a necessidade de beijá-lo antes de partir.

— Eu te eternizei em mim. Além da vida. — Sussurrei contra seus lábios.

— Além da vida…

Lentamente, nossas bocas se tocaram em um último beijo. Calmo, terno, cheio de carinho, como se tentássemos colocar todo o tempo perdido em apenas um instante. Minha alma se acendia inteira só para ele. O beijo foi lento e demorado, como uma despedida. Meu coração batia com tanta força que eu mesma era capaz de senti-lo.

Quando nossos lábios se separaram, encaramos os olhos um do outro pela última vez. Nunca vou me esquecer do jeito com que os olhos dele brilharam para mim, beirando as lágrimas. Demonstrando toda a dor que ele sentia ao me deixar.

Eu queria gravar cada detalhezinho dele dentro de mim. Não queria me esquecer de Elias nem por um segundo. Acho que o mais triste da vida é quando você se dá conta que começou a se esquecer de como aquela pessoa era antes de partir. Esquecer o rosto. A voz. O toque de suas mãos. Como faz para fazer as memórias durarem para sempre?

Não dava para fotografar um fantasma, eu até tentei. Então tudo que me resta como escritora é escrever sobre Elias. Eternizá-lo em palavras. Em um livro inteiro sobre o fantasma em meu coração.

— Espero que você encontre a Ester.

— Não sei se vai ser com o Tunico, mas quero que você seja feliz com alguém que te ame, te leia e te ouça por inteira.

Eu assenti em meio às lágrimas, agarrei-o pela última vez, dando-lhe um último abraço intenso. Sentindo o seu frio penetrar na minha pele e chacoalhar meus ossos.

— Obrigado, Maria Lina. — Sussurrou, segurando meu rosto. — Por me libertar.

O vento passou, acariciando meu cabelo. O som, a sensação e a despedida chegavam. Já me envolvendo em seu manto frio de saudades.

— A gente vai se ver novamente. Quando a marca que deixei no teu coração reencontrar as cicatrizes do meu…

Assenti fervorosamente.

— Eu vou continuar aqui. Onde você me deixou.

Você me deixou sem escolha, a não ser permanecer aqui, exatamente onde tudo começou… bem onde você marcou o meu coração.

Meu fantasma começou a se afastar, os nossos dedos se desfazendo no aperto de nossas mãos, até que lentamente a conexão foi interrompida. Me olhando uma última vez, Elias caminhou sobre a água azul, passos leves que não molhavam, como se flutuasse. Uma luz imensamente branca surgiu da água da cachoeira, quase cegando-me. Um vento forte o empurrava em sua direção. Uma força maior o levaria daqui.

Eu queria gritar: “Não vá. Fique comigo”. Mas eu sabia que esse era o nosso destino e não há como ir contra ele.

Gradualmente a silhueta de Elias foi sumindo, a luz intensa da queda d’água envolveu-o, e ele se apagou subitamente em milhões de mariposas de luz, girando em espirais até desaparecer no céu estrelado.

A natureza respondeu. O vento sussurrava histórias antigas. O coaxar dos sapos parecia agora uma melodia. Grilos e cigarras harmonizavam, e notas soltas de um piano distante ecoavam como se o próprio universo estivesse testemunhando.

Fiquei parada, o coração batendo forte, sentindo o eco da presença dele ainda pulsar na água, nas folhas, na brisa. E sobretudo, dentro de mim. Toquei o anel do colar pendurado em meu pescoço e deixei as lágrimas quentes rolarem por minha face.

Elias não estava apenas sendo lembrado. Ele estava, finalmente, eternizado.

E eu… eu tinha ainda mais coragem para contar minha própria história.

 

 

“Queria me juntar a você.
Estar ao seu lado onde pudéssemos
olhar para as estrelas
e nos sentássemos agora e para sempre.”
— O Estranho Mundo de Jack

 

 

Caminhei pela madrugada fria na companhia de Rubi e o lampião em minha mão. O sol ameaçava nascer no horizonte, quando cheguei até a casa. Tunico estava na varanda da frente, agachado no chão com as mãos na cabeça – coitadinho, deve ter ficado preocupado.

— Graças a Deus! — O ouvi exclamar de longe quando se deu conta da minha presença e correu em minha direção.

Me atirei em seus braços que me agarraram com força e me arrancaram do chão. Ali, sentindo seu calor, na proteção do seu corpo. Desabei.

Chorei copiosamente, com direito a lágrimas, nariz escorrendo e tudo. Tunico apenas me manteve em seus braços, ajoelhado na lama do quintal, protegendo-me como se eu fosse uma criança indefesa.

— Onde cê se enfiou, muié? Já tava achando que tinha juntado as trouxas e indo imbora.

— Ele se foi… Elias me deixou.

Estou sozinha novamente. Só eu, meus livros não lidos e meu coração partido por um cara que nem existe. Como dizem: devo ter nascido com o cu virado pra lua. Só pode.

— Ô minha cabritinha… eu sinto tanto.

Tunico me pegou nos braços e levou-me de volta para a cama. Deitou-se comigo e me manteve contra seu corpo quente, protegendo-me até o sol raiar. E ele não saiu mais do meu lado nem por um segundo sequer.

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