Capítulo 16
A verdade pode te ferir, mas também te libertar.
“Ainda dói o meu coração.
E ainda que não bata, está se quebrando.”
— A Noiva-Cadáver
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O vento batia forte contra meu rosto enquanto Tunico cavalgava velozmente em direção ao centro de Capitólio. Eu me agarrava em sua cintura sem sequer perceber, porque minha mente estava em outro lugar – presa ao eco de tudo o que havia descoberto naquela gruta. A vida, a morte, o amor interrompido… eram muitas peças embaralhadas dentro de mim.
A cada batida dos cascos, parecia que meu coração também tropeçava. Elias. Ester. Uma história de amor que não se cumpriu, um destino interrompido por tragédia e silêncio.
Os ossos na caverna…
— Tunico… — Chamei em meio ao barulho da cavalgada, mas ele não respondeu. Estava decidido, concentrado, como quem sabia exatamente aonde precisava me levar.
Pude sorrir por um segundo, ao concluir que, no fim das contas, quem veio me salvar não foi um príncipe e sim um cowboy num cavalo marrom. E eu estava igualmente encantada.
Quando dei por mim, já estávamos no centro da cidade.
— Chegamo. — Anunciou o caipira, descendo de Rubi.
Estávamos parados diante de um prédio antigo, meus olhos se arregalaram. Um letreiro em letras gastas refletia sob o sol da tarde:
Imobiliária Horizonte Eterno.
— A imobiliária do seu Noberto? — Questionei, descendo do cavalo sem entender absolutamente nada. — Tunico, pelo amor de Deus, o que a gente tá fazendo aqui?
Ele ajeitou o chapéu, o rosto iluminado pelo orgulho de quem guardava um segredo precioso.
— Seu Noberto… ele é fio da dona Ester. Se tem arguém que pode ajudar nois nessa história, é ele.
Senti minhas pernas fraquejarem. A revelação foi como um soco que me deixou sem ar.
— Filho… da Ester? — Repeti, com a boca seca.
— E talvez do Elias, né? — Completou ele, baixinho. — Num me lembro da dona Ester ser casada…
As peças do quebra-cabeça começaram a se unir lentamente em minha mente. Atordoada, entrei pela porta de vidro ainda cambaleante, o coração martelando nas costelas. O sino acima da entrada tilintou, anunciando nossa chegada.
O senhorzinho de cabelos brancos, bigode fino e olhar bondoso levantou-se de trás do balcão. O colete alinhado e os óculos na ponta do nariz lhe davam um ar respeitável. Como eu não havia percebido a semelhança entre eles? Os mesmos olhos. As mãos idênticas. Santo Deus…
— Senhorita Maria. Tunico. O que fazem aqui? — Espantou-se, animado, embora surpreso. — Está tudo bem? Ah, não me diga que aqueles fantasmas idiotas te enxotaram? A senhorita é a que prevaleceu por mais tempo.
Eu não sabia por onde começar.
Engoli em seco, troquei um olhar com Tunico e respirei fundo.
— Precisamos conversar, senhor Noberto. É… importante.
Ele arqueou as sobrancelhas, despediu-se com delicadeza do cliente que atendia e, em seguida, nos conduziu até uma sala particular nos fundos. Um ambiente simples, mas aconchegante, com móveis de madeira escura e cheiro de café recém-passado.
Quando a porta se fechou, senti que o peso do momento caiu inteiro sobre meus ombros. Então, contei tudo. Sem esconder nada. Desde a primeira aparição de Elias, o mapa, a gruta, os ossos, a mochila esquecida, até as últimas palavras que Elias me confiara. As memórias recentes vieram como enxurrada, e minha voz embargava a cada detalhe.
Quando terminei, a sala ficou mergulhada em um silêncio agonizante. O velho senhor, sentado diante de nós, apertava as mãos trêmulas sobre os joelhos. Seu olhar se perdeu em algum ponto distante, como se buscasse o rosto de alguém que já não estava mais ali.
— Minha mãe… Ester… — Murmurou ele, com a voz falha. — Ela faleceu em 2022, aos 86 anos. Mais uma vítima da epidemia covid-19.
Meu coração se partiu naquele instante.
— Até o fim, ela nunca deixou de amar Elias. — Continuou, com lágrimas brilhando em seus olhos. — Às vezes, dizia ter dúvidas…, mas optava por confiar que algo havia acontecido com ele. Porque acreditava no amor que ambos compartilhavam. Achava que era forte demais pra ele tê-la abandonado… ainda mais grávida.
Minhas mãos tremeram sobre o colo. Meus olhos ardiam com força. Se não fosse Tunico ali, apertando meu joelho, eu não suportaria.
— Ela sofreu muito… — Ele suspirou, pesando as palavras. — A sociedade não a perdoou. Foi desdenhada, julgada. Havia sido abandonada grávida. Mamãe me criou sozinha, com uma coragem que… até hoje me impressiona. Administrou a antiga pousada da família com todas as forças que tinha, até que, no fim da vida, transformamos tudo na imobiliária que você vê aqui.
As lágrimas caíram de seus olhos, suas mãos enrugadas e trêmulas esfregavam suas pálpebras. Mas havia dignidade em cada palavra.
— Saber a verdade… sobre meu pai… — Sua voz se embargou outra vez. — É como receber um presente tardio. Eu tinha perdido as esperanças. Achava que ele tinha simplesmente nos abandonado. Agora sei que ele não era um homem ruim. Só foi… vítima do destino.
Minha garganta fechou. Quis responder, mas nada saiu.
— Você deve ter se questionado: por que pagariam uma grana dessas para alguém habitar um casarão mal-assombrado? Meus avós, pais do Elias, deixaram a herança para isso. Eram ricos demais, então pensaram em usar para manter a fazenda, que nunca foi do meu interesse. Eles tinham a expectativa de que, alguém nesse mundo imenso um dia viria e desvendaria o mistério… pois, nem por um segundo, eles perderam a esperança de encontrar o meu pai.
Ele, então, me fitou com ternura e sua expressão se suavizou.
— Obrigado, Lina. — Disse, com a voz firme. — Obrigado por me dar esse pedaço de verdade. Você trouxe luz para uma sombra que me acompanhou a vida inteira. Eu e a minha família, seremos eternamente gratos. A minha mãe então… nem se fala. Ela deve estar muito feliz sabendo que Elias jamais a teria abandonado.
Sorri entre lágrimas, sentindo o peso daquela confiança.
— Desde que você entrou aqui… — Acrescentou o velhinho, ajeitando os óculos e me encarando profundamente. — Eu senti. Senti do fundo do coração que você trazia consigo grandes coisas. E eu estava certo sobre isso.
Tunico, ao meu lado, coçou a nuca, engolindo em seco. E eu… só consegui segurar a mão do senhor Noberto, em silêncio, compartilhando aquela dor transformada em alívio.
A verdade, afinal, pode ferir. Pode libertar. Ou, às vezes, como ali… pode simplesmente devolver a alguém a dignidade que o tempo tentou apagar.
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“É preciso acreditar em algo quando se está triste.
Fazemos qualquer coisa por um último momento.”
— Ghost: Do Outro Lado da Vida
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No fim da tarde, acompanhamos seu Noberto até a antiga casa da fazenda. O sol se despedia atrás das montanhas, pintando o céu em tons de dourado e rosa, como se o próprio universo quisesse testemunhar aquele encontro.
Meu coração batia forte. Eu era a intermediadora de um momento que parecia impossível.
Entrei na casa primeiro. Queria preparar meu fantasma para o que estava por vir.
— Elias, você ainda está aqui? — Chamei, encarando as paredes. — Por favor, não me diga que já encontrou a luz.
Senti um frio suave se aproximando e soube, para o alívio do meu coração, que Elias ainda não havia partido.
— Estou aqui, Lina.
Elias estava ao meu lado, invisível para o mundo, mas tão presente para mim quanto o ar que eu respirava.
— Elias… — Sussurrei, abrindo um sorriso imenso.
— Você encontrou? Encontrou a minha Ester? — Elias segurou-me pelos ombros, cheio de ansiedade. Doeu ter que desapontá-lo.
— Sinto muito, mas faz alguns anos que Ester faleceu. — Ele soltou meus ombros com cuidado e vi sua expressão se entristecer.
— Mas… quero te apresentar a alguém.
Elias ergueu o rosto com curiosidade e apenas assentiu. Sem nem se questionar o que lhe aguardava.
— Seu Noberto, pode entrar.
Na companhia de Tunico, o senhorzinho avançou para o interior da casa. Meio intimidado olhando tudo ao redor com certo medo. Não podia julgá-lo, afinal garanti que havia um fantasma. Quem não temeria?
Dei espaço para que ele se aproximasse.
— Elias, quero que conheça o Noberto. Você já deve tê-lo visto por aqui… foi ele quem me contratou. — Olhei nos olhos do fantasma quando anunciei com o peito cheio de alegria. — Esse é o seu filho.

Seu Noberto se sentou na sala simples, com cheiro de pó e madeira antiga. Tirou do bolso uma carteira gasta, de onde puxou uma fotografia dobrada. Seus dedos tremiam, mas seus olhos brilhavam de orgulho.
— Estes… são meus filhos. — Disse, estendendo a foto. — E aqui… os netos. — Apontou sorrindo.
Mostrei a imagem a Elias, segurando-a diante de seus olhos. Ele se aproximou, deslizou os dedos pela superfície da fotografia, e seus traços fantasmagóricos se iluminaram. Um sorriso sincero, largo, rompeu a dor que sempre carregava.
— Eles… são lindos. — Murmurou, com a voz embargada. — Todos… tão vivos.
Senti um arrepio atravessar a sala, como se a energia dele se expandisse em ondas de pura alegria. Pela primeira vez, não havia tristeza em sua presença, mas orgulho. Ele morreu numa fatalidade horrível, mas deixou um legado e principalmente: amor verdadeiro.
— Você conseguiu, meu filho… — Elias disse, olhando para Noberto através de mim. — Você construiu uma vida inteira… e me deu uma família que eu jamais imaginei conhecer.
As lágrimas caíram dos meus olhos, e Noberto, sem sequer poder ver seu próprio pai, também chorava – talvez sentindo, no fundo da alma, que aquele momento carregava algo maior do que a vida.
Entre o céu que escurecia e o brilho tênue das primeiras estrelas, percebi: Elias não estava apenas sendo lembrado. Ele estava, enfim, sendo eternizado.
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Sam: “As pessoas dizem ‘eu te amo’
o tempo todo e não significa nada.”
Molly: “Sabe, às vezes precisamos ouvir.”
— Ghost: Do Outro Lado da Vida
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