Capítulo 3

Estão mais para ratos do que fantasmas.

0 0

“Só porque não consigo ver,
não quer dizer que não possa acreditar.”
— O Estranho Mundo de Jack

 

 

Cada pequena manifestação me deixava mais intrigada. Se fosse só uma casa velha, eu ignoraria. Mas não… havia intenção. Algo por trás desses sustinhos. Cada estalo parecia uma palavra, cada sombra um gesto. E eu, sorrindo como idiota, respondia com voz alta:

— Pode continuar, eu tô aqui. Quero ouvir.

No meio de objetos caindo e janelas batendo, algo diferente aconteceu: senti um ar gelado passar pelo meu braço, e, por um instante, a sala pareceu ficar mais silenciosa. Respirei fundo e disse, sem ironia:

— Tá bom, você ganhou minha atenção. Agora me mostra.

Foi como se o universo tivesse ouvido. Uma luz azulada e tênue começou a se formar diante dos meus olhos, a silhueta começou a ficar nítida. Primeiro uma sombra, depois um contorno humano. Meu coração disparou.

— Pela minha misericordiosa santinha! Jesusinho amado! QUEM É VOCÊ?

Ele se materializou completamente, ainda oscilando entre uma figura humana e o degradê etéreo fantasmagórico. O rapaz ficou parado diante de mim, os olhos arregalados, a expressão desesperada:

— Espera, espera… você… você tá me vendo? Sério? Você tá mesmo me vendo?

O fantasma manifestado diante de mim sapateava desnorteado feito o Chaves diante de uma de suas crises de empolgação.

— SIM! SIM! Eu tô te vendo! — Respondi, chacoalhando as mãos, pulando em sintonia. Isso é bom, não é? Devo ficar feliz? — Olha só, finalmente não tô falando sozinha. Isso é histórico!

Ele respirou fundo, claramente aliviado, mas ainda com aquele toque de nervosismo fantasmagórico:

— M-meu nome é Elias Francisco dos Santos. E acho que morri!

Fiquei paralisada olhando para ele, com o queixo caído. Uau, parece até nome de praça no centro da cidade. Ele deve ter morrido há muito tempo mesmo.

— Ah, você acha?

Ele ergueu os ombros e as mãos em dúvida.

Não deu pra segurar, caí na gargalhada, me curvando de tanto rir. Teve até lágrimas e tudo. O tal Elias cruzou os braços, encarando-me com pouco caso.

— Não tem graça mesmo.

— Ah, tem sim. — Eu lutava para recuperar o fôlego. Mas percebi que, de fato, não tinha graça nenhuma. — Hmm… ok. Desculpa. Sem risadas.

— Você… pelo menos acredita em mim?

— Olha, é difícil dizer, meio que já fiquei doida uma vez. Comecei a ver meus personagens, achei que estava vivendo um romance com um deles. E estava, mas com as vozes da minha cabeça. Tive que ser internada, sedada e tudo mais. E no final ficou tudo bem. Foi só culpa do isolamento, lembra da pandemia? Covid-19 e tal… me arrepio só de lembrar.

Só espero que eu não surte e tente atravessar paredes, achando que são pedras mágicas, me transportando direto para a Escócia antiga – aquelas terras altas cheias de castelos de pedra e, claro, cair direto nos braços fortes de um escocês ruivo absurdamente gostoso.

— Tá! Para de falar da sua vida, o fantasma aqui sou eu.

— Ah, é verdade, você estava tentando me matar. — Estreitei os olhos, finalmente me dando conta da burrada que estou fazendo. — Caramba! Você estava mesmo tentando me matar e estou aqui tagarelando sobre a minha vida.

— Eu não estava tentando te matar.

— Ah, bom, porque jogando livros na minha cabeça parecia muito tentativa de homicídio, viu?

— Estava tentando chamar sua atenção e não consigo acreditar que realmente funcionou! Faz mais de 68 anos que pessoas vêm e vão, e não houve um sequer que me viu. Você é a primeira!

Ergui as sobrancelhas. Nossa… isso deve significar alguma coisa.

— Ok… o que você estava tentando me falar?

— Nada. Eu estava tentando chamar sua atenção. Vou precisar repetir quantas vezes?

— Disso eu sei, mas não era para falar alguma coisa?

— Quando finalmente acontece, a pessoa tem uns parafusos a menos… — Elias murmurou enquanto revirava os olhos.

— Aí! Doeu, viu? Olha se não quer minha ajuda, então me deixa em paz, falou?

— Calma, moça, eu quero sim! — Ele ergueu as mãos, todo apavorado, em pedido de cautela. — Desculpa, você é a melhor coisa que me aconteceu até agora…

Um sorrisinho danado me escapou, por dois motivos.

Um: quem é que estava com medo agora?

Dois: é difícil resistir a elogios, principalmente quando eles vêm de um fantasma. Não é todo dia que isso acontece.

— Olha, eu não sei não… — Cruzei os braços, demonstrando incerteza. — Acho que você não é real. E talvez eu esteja passando por uma crise tão severa de insanidade que todas as suas tentativas de assassinato devem ter sido, na verdade, minha cabeça endoidando de vez. É melhor eu ir embora procurar ajuda.

— NÃO! — Elias pulou, atirou-se de joelhos aos meus pés. — Veja: posso te tocar; eu existo, sou um fantasma de verdade!

Ergui as sobrancelhas quando suas mãos geladas se fecharam ao redor dos meus calcanhares nus. Não foi o fato de me tocar que me convenceu. Não mesmo! Meus delírios já me causavam sensações parecidas. Foi seu toque assustador, um arrepio frio e profundo que faz a alma inteira tremer. Tal qual um defunto!

Valha-me, nossa senhora! Não é um surto/delírio da minha cabeça. Ele tá morto mesmo! É um fantasma de verdade!

Afastei-me com dois passos para trás.

— Está bem, está bem! — Praguejei novamente assustada. — Mas sem mais tentativas de sustos que quase me levam a paradas cardiorrespiratórias.

— Trato feito! — Ele concordou sem contestar.

Bom, sendo assim… é melhor eu superar meus medos. Tem algo muito grande acontecendo aqui. Estou me comunicando com um fantasma!

Será que sou a Oda Mae[1] de Elias? Será que minha mãe e avó eram médiuns e agora a coisa finalmente “chegou para mim”?

Sam Wheat[2], por acaso você também tá aqui?

Chacoalhei a cabeça para reordenar os pensamentos. Ok, ok, de volta à “realidade”, Maria Lina…

— Tudo bem, já que estou aqui, numa casa abandonada, falando com um morto. Nada mais justo nos apresentarmos. Sou Maria Lina. Mas todos me chamam de Lina. Ou Mali. Que é apelido do apelido de Malina. Então, fica à vontade.

Ele ergueu as sobrancelhas e estendeu a palma da mão na minha direção. Meio receosa, avancei dois passos. Quando minha pele tocou a dele pela segunda vez – fria como o fundo de um congelador – o arrepio atravessou meu corpo até a alma; mas dessa vez carregando uma corrente elétrica poderosa. Com o olhar preso no dele, acompanhei sua ação seguinte: levou minha mão até os lábios e depositou um beijo suave, super respeitoso.

Uau.

— O prazer é todo meu.

Minhas pernas quase cederam. O jeito que ele falava, o tom galanteador, parecia arrancado de um livro antigo.

Olha só pra mim, suspirando por um quase-assassino invisível.

Puxei a mão de volta e ela atravessou a dele como se fosse fumaça, dissipando-o por um instante antes de se recompor. Caramba, eu devo estar sonhando.

— Tá, agora fala. Como você morreu? — Balancei a cabeça tentando reordenar meus pensamentos.

— Aí que tá… eu não sei. — Ele sussurrou o final da frase enquanto olhava de rabo de olho a sala em que estamos. Como se mais alguém estivesse ouvindo. Só falta ter mais fantasmas aqui… um só já é demais.

Arregalei os olhos depois de raciocinar sua resposta. Ué, como isso é possível?

— Não tem luz branca vindo na sua direção?

— Não.

— Nenhuma outra alma te fazendo companhia?

— Nadica. Sou só eu.

Ai que alívio!

— Ninguém nunca te contou absolutamente nada? Não tem um guia? A dona morte com a foice? E Deus? — A cada indagação, Elias balançava a cabeça negando.

— Não. Negativo. Tudo que me restou foi essa casa, os ratos, aranhas, alguns escorpiões e os móveis. Me sinto a própria Bela da Bela e a Fera, tagarelando com chaleiras.

— Coitadinho… Espera! Você disse escorpião?

— CUIDADO! Atrás de você…

Dou um grito e salto para trás, trombando contra o seu “corpo” ou “espectro”, seja o que for… que rapidamente se materializou atrás de mim. Ele parece o noturno do X-men, sumindo e reaparecendo num piscar de olhos.

Meus pensamentos são cortados quando sinto seu corpo contra o meu. Ele é frio, magrinho, mas forte, está em forma. Seus braços longos e gélidos rodeavam meu corpo, enquanto sinto seu peito chacoalhar devido a sua risada sutil.

Meu coração errou as batidas bem naquele momento, enquanto seu rosto estava próximo demais do meu. Feixes de luz azul o envolviam, dançando com sutileza sob sua pele, revelando a mim sua verdadeira identidade: ele é um fantasma… tá mortinho da Silva, mas seu abraço gelado (nesse calor) é surpreendentemente uma delícia.

— Quem é que está rindo agora, hein? — Ele sussurrou no meu ouvido, fazendo-me estremecer.

Maria Lina, porque é que você não está se soltando, hein? Se isso aqui é morte, tô quase botando meu nome na ficha de inscrição.

Ele simplesmente causou um curto-circuito no meu sistema. Não queria que seus braços me soltassem… assim, tão de pertinho, eu podia ver cada detalhezinho do seu rosto. E, macacos me mordam, ele é lindo de morrer.

Elias parecia pertencer a outra era, como se tivesse escapado das páginas amareladas de um diário esquecido. Ele tinha aquele tipo de beleza que parecia uma provocação – traços fortes, delineados como se a própria arrogância tivesse moldado seu rosto. O maxilar marcado, os lábios que se curvavam em um meio-sorriso insinuante e os olhos claros como mel, carregados de uma intensidade quase cruel, faziam dele um convite perigoso. Não era apenas atraente, era desarmante, como se soubesse exatamente o efeito que causava e se divertisse com isso.

O cabelo, loiro-escuro e desgrenhado de forma estudada, dava-lhe um ar rebelde, contrastando com a sobriedade de suas roupas. O colete ajustado, a gravata borboleta frouxa e a postura relaxada eram detalhes que denunciavam um cavalheiro que não levava as convenções tão a sério quanto aparentava.

Havia nele uma mistura rara: o charme de um homem que sabe seduzir sem esforço, a inteligência de quem observa mais do que fala e a ironia de alguém que sempre guarda uma resposta afiada na ponta da língua. Olhá-lo era sentir-se atraída e provocada ao mesmo tempo – como se ele dissesse, sem precisar abrir a boca: “vamos ver até onde você aguenta brincar comigo.”

Suspirei longo demais, deixando o magnetismo mais profundo evaporar de dentro de mim, enquanto ele umedecia os lábios, devorando-me intensamente com seu belo par de olhos.

— Até que você é bem bonitinho, viu…

— A senhorita também é de dar água na boca, devo confessar.

Minha boca formou um “o” perfeito. Tentei dar um leve tapa em seu ombro, mas minha mão passou direto, deixando uma bagunça enevoada para trás, Elias deu risada e soltou-me delicadamente.

— Bom, acho que só nos resta sermos bons amigos.

— Podemos começar por aí, se você honrar com o trato de parar tentar provocar um ataque cardíaco em mim.

— Não posso fazer nada se até morto eu sou bonito.

Revirei os olhos tão profundamente que quase ouvi o Gil do Vigor ecoando na minha mente: “Aí, meu Deus… eu vim pra cá, miga, com outro pensamento! Isso aqui era meu sonho de vida…, mas eu tô preso, num lugar com esse povo. Quero não, oshe!”

O sorriso torto dele era puro deboche, e olha, que teclas de piano lindas ele tem na boca.

— Bom, o que posso fazer? Tive muitos anos para aperfeiçoar minhas técnicas. E agora que finalmente alguém me ouviu… — Ele fez uma pausa dramática, os olhos brilhando. — Me desculpe por ser tão direto, senhorita Lina, mas… poderia, por gentileza tirar a roupa?

Meus olhos quase saltaram para fora das órbitas.

— Brincadeirinha! — Ele ergueu as mãos em rendição, rindo.

— Seu fantasma descarado!

— Ora, estou entediado, mademoiselle. Mas tenho paciência e carrego a certeza de que, quando a senhorita não estiver aguentando mais, tirará a roupa sem eu sequer pedir.

— Você tem muita autoestima, não acha? Sem querer ofender, mas já ofendendo, o que te faz pensar que eu dormiria com um fantasma? Perdeu as estribeiras?

— Ah, meu doce, não passa pela sua cabeça as coisas de outro mundo que posso fazer com você, que nenhum outro homem vivo jamais seria capaz?

Tive que engolir seco, quase apertei as coxas. Ele tem um ponto, um excelente por sinal. Tão tentador… caramba, o que ele tá fazendo? Que poder é esse que ele ganhou? Será que ele morreu num cabaré? Aí, minha santinha.

— Suas bochechas vermelhas me soam como um elogio.

— Cala a boca! — Tentei tapar a pele quente do meu rosto com as mãos. — Olha, isso não é nada gentil, ok? Que feio da sua parte!

— Só estou me divertindo, Lina. — Ele deu de ombros e caminhou graciosamente até o quadro imenso de um casal antiquado (que imagino ser os antigos moradores da casa). — Olha, sem mais flertes! Eu não sei exatamente o que está acontecendo aqui. Não entendo porque fiquei preso nessa casa. Acho que sofri uma amnésia grave quando morri. Então, preciso ser franco, quero muito acabar com esse castigo e acho que isso só será possível com a sua ajuda.

De fato, a franqueza dele e a expressão de cachorrinho sem dono abandonado na chuva, amoleceram meu coração de forma certeira. Como eu poderia negar ajuda a uma alma que morreu e está em agonia? E como a fofoqueira que habita dentro de mim – eu quis dizer a curiosa, a escritora de investigação criminal –, poderia ignorar o mistério que rondava a aura azul daquele rapaz? Se eu fugisse agora, estaria negando a minha própria natureza.

— Se o brilho dos seus olhos for algum indicativo, acho que está tentada a dizer um belo “sim”, senhorita Lina. — O sorriso vitorioso dele, mesclado a sua voz galanteadora, só fortalecia ainda mais essa resposta.

Naquele instante, percebi que nossa relação seria mais do que sustos e brincadeiras de fantasma.

— Não queria ser tão fácil, mas honestamente, a quem quero enganar? Estou muito curiosa para saber sua história.

 

“Você parecia um demônio desesperado uivando.
Você me assustou. Faça de novo.”
— A Família Addams

 


 

[1] Oda Mae Brown: a médium hilária do filme “Ghost: Do Outro Lado da Vida” (1990), interpretada por Whoopi Goldberg.

[2] Sam Wheat: o fantasma romântico de “Ghost: Do Outro Lado da Vida” (1990), interpretado por Patrick Swayze.

Indique para um amigo