Capítulo 8

Se estiver em cima do muro: pule.

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“Como é que algumas vezes,
ao sermos afastados de algumas coisas,
ficamos ainda mais próximos delas?”
– Coraline

 

 

O despertador parecia mais cruel do que qualquer fantasma: 3h30 da manhã. Eu devia estar dormindo, mas contra todas as probabilidades, arrumei um emprego com pagamento surreal, me tornei babá de fantasma e agora tenho um “encontro” com um cowboy mega gostoso. Isso não é tudo que pedi pra Deus? E talvez até um pouco mais.

Bem, chamar isso de encontro é exagero. Acho que Tunico só estava sendo gentil, me convidando para turistar e tal. Quem não teria pena de uma donzela presa num casarão mal-assombrado?

Mas mesmo assim a sensação de ansiedade me consumia. Fazia tanto tempo que eu não saía com um cara. Descobri que a expectativa de me afastar dessa casa empoeirada para viver um pouquinho, fazia meus ossos chacoalharem.

Elias estava ali, invisível, me observando enquanto me arrumava. Senti aquele arrepio familiar subir da nuca aos pés, o toque gelado do fantasma passando de leve pelos meus braços. Depois algo pressionou de leve meus lábios. Demorou para eu assimilar que era um beijo impossível, frio e eletrizante, deixando meu corpo inteiro tenso.

— Elias… — Murmurei, lutando para afastar o pensamento de que aquilo estava prestes a me enlouquecer.

Ele respondeu com um suspiro quase audível.

— Só queria ser o primeiro a te beijar…

Minha expressão despencou. Sequer havia nos beijado e já tínhamos brincado com mãos bobas. Naquele momento quis desistir de tudo. Largar o passeio para lá e ficar aqui, com o meu fantasma.

— Mas acho que perdi esse direito quando, de alguma forma, morri.

Agora ele se materializou atrás de mim, o vi através do meu reflexo no espelho, sua expressão era tão tristonha que massacrou meu coração.

— A escolha é minha, Elias. E se eu quiser isso? — Virei-me para encará-lo nos olhos.

Eu não precisava pensar duas vezes, eu escolheria meu fantasma um milhão de vezes. Porque amores impossíveis são de fato impossíveis de se resistir.

Mas mesmo dizendo que ele era o escolhido, a expressão de Elias não mudou.

— Está decidido! Eu não vou sair mais! Vou agora mesmo atrás dessa cachoeira! Eu te fiz uma promessa e vou cumpri-la!

Comecei a ir em direção à porta do quarto com empenho, mas levei o maior tropeção no tapete do quarto e quase fui de cara no chão, se não fosse por Elias, que me segurou bem a tempo.

— Mas que droga! Não consigo nem andar sem despencar feito fruta podre!

— Viu só? É suicídio deixar você ir até a cachoeira sozinha.

— Mas eu te fiz uma promessa.

— Você não me prometeu nada, Lina. E sei que mesmo assim vai cumprir. Eu já esperei mais de 60 anos, aguento mais um diazinho ou outro. — Ele acariciou meu rosto e depois se abaixou para dar nó nos meus sapatos. — Agora termina de se arrumar, ou vai perder o nascer do sol. Honestamente, eu não perderia isso por nada nesse mundo. Daria qualquer coisa para ver e sentir a sensação dos raios de sol tocando minha pele novamente. E você está viva, Lina. Portanto, vá viver.

Eu podia sentir o misto de ciúmes e frustração exalando da sua voz. Era como se Elias fosse a barreira etérea que não me deixava esquecer que ele existia… e que eu o queria. Não acho que ele está sendo totalmente sincero. Acho que está enganando a si, por não ver mais esperanças. Contudo, ele também estava certo…

Detesto ficar em cima do muro, mas essa situação já estava alcançando limites assustadores. Ao mesmo tempo que Elias me empurrava na direção de Tunico, ele me puxava de volta com força. E meu trauma com relacionamentos já erguia um milhão de red flags na minha cabeça.

Uai, Malina, você não disse agora mesmo que escolheria Elias um milhão de vezes? É, acho que tô exercendo meu direito humano de errar ao fazer promessas bestas e impossíveis de serem cumpridas. Não era de todo mentira. Mesmo querendo Elias com cada fibra do meu corpo, percebi que isso não era escolha – era entrega cega. E eu não podia me perder de novo.

Passei anos escrevendo sobre amores e destinos…, mas agora que vivo a minha própria história, não vou deixar ninguém escrever por mim. Esse capítulo é meu. Então, Shakespeare que enfie suas tragédias onde couber.

Eu tinha minha própria filosofia de vida: “se estiver em cima do muro: feche os olhos e pule”, e eu escolho saltar no lado mais seguro para mim. Podem considerar isso egoísta, mas após ter seu coração pisoteado por pessoas tão medíocres, você aprende a se colocar em primeiro lugar.

E é exatamente isso que vou fazer agora…

Eu escolho a mim mesma, de agora em diante e sempre.

— Acho que precisamos… de um tempo. — Sussurrei, a voz quase falhando, tentando manter a razão sobre o coração que já batia descompassado. — Não podemos continuar com isso… está começando a nos ferir.

Elias ficou em silêncio, ainda agachado diante de mim, o rosto com uma expressão impenetrável encarando o chão. Pude sentir a tristeza dele como uma onda de frio passando por mim.

— Você está certa. Eu e você, é impossível…

Ele se afastou, resignado, e eu me senti culpada, apesar de precisar tanto respirar e ter algum senso de normalidade. Uma parte de mim queria correr atrás…, mas eu sabia que era como tentar segurar fumaça com as mãos.

 

 

“Só porque você ama alguém,
não significa que deveria ficar
e atrapalhar sua vida.”
— Supernatural

 

 

Controlando a minha respiração e determinada a seguir em frente com minhas escolhas, fui encontrar Tunico. Ele me esperava apoiado contra o carro prateado plotado com a logo da empresa dele: Agência de Turismo Rota no Paraíso. E, é claro, que o caipira estava com aquele sorriso fácil que parecia iluminar tudo ao redor.

— Dia, moça! Bora ver como Capitói acorda, junto comigo?

Só com essa fala e esse olhar animador pra cima de mim, a energia sombria da “briga” com Elias se dissipou feito névoa de fantasma.

— Estou pronta… — Respondi, tentando soar firme e abrindo meu mais belo sorriso.

O 4×4 já estava pronto, os pneus brilhando sob o sol que ainda nem nascia direito. Era um automóvel comum e robusto, imagino que pronto para encarar as estradas difíceis da área rural de Capitólio. Depois da experiência no carro do seu Noberto, pude compreender que veículos comuns não aguentam o tranco.

Tunico abriu a porta do veículo pra mim, todo cavaleiro – e com aquele sorrisinho que parece pedir pra gente confiar.

— Pode bota a rádio, moça. Aqui o volante é meu, mas o som é seu. — Disse ajeitando o chapéu com um charme quase inconsciente.

Sintonizei numa estação que tocava sertanejo raiz só pela imersão e ele aprovou com um estalo de língua.

— Ah, essa é das boas! — Comentou. — Meu pai ouvia essa do Tião Carreiro todo domingo, antes de fazer o almoço. A gente morava num sítio que nem estrada tinha… pra ir pra escola eu atravessava o rio num bote que meu avô fez com as próprias mãos.

Ele deu uma risadinha curta, nostálgica. Eu já tava toda ouvidos, se tem uma coisa que nós mineiros gostamos é de uma boa prosa cheia de história e vivência. Tunico parecia ser uma fonte interminável de aventuras e queria ouvir cada uma delas.

— Teve um dia que o bote virou e eu perdi a mochila, os cadernos, tudo. Voltei pra casa chorando. E sabe o que o velho disse? “Pelo menos cê aprendeu que nadar também é estudar.” — Tunico gargalhou, e eu ri junto.

Ficamos um tempo rindo, e eu percebi que o riso dele era daquele tipo que clareia o ambiente – o tipo de gente que deixa o dia menos pesado só por existir. Era exatamente disso que minha alma sombria e solitária precisava.

Fomos até duas pousadas buscar dois casais que fariam o roteiro conosco. Tunico me apresentou como “amiga de fora”, e um dos rapazes comentou, sorrindo:

— Vocês dois fazem um par lindo, sabia?

Eu ri, meio sem jeito, mas Tunico piscou pra mim pelo retrovisor.

— A amizade também é um tipo de amô, uai. — Respondeu, e de algum jeito, aquela frase ficou ecoando em mim.

 

 

O nascer do sol foi espetacular, estava frio na serra, por isso o caipira tirou sua jaqueta para me cobrir, e pediu permissão para me abraçar respeitosamente enquanto assistíamos ao espetáculo.

A química entre nós era instantânea, cada toque dele para me segurar nas pedras da cachoeira ou a preocupação em tirar uma foto minha só para eu ter registros do passeio, me deixava tonta. Mesmo longe, senti Elias. Um arrepio gelado subiu da nuca aos pés. Não faço ideia se ele pode sair da casa, mas sentia como se ele me observasse o tempo todo.

Visitamos a Cachoeira do Beija-Flor, onde ele me segurou firme para não escorregar. A água fria misturada ao toque quente dele me fez tremer de forma completamente diferente. A Lagoa Azul da Pedreira era um espetáculo, fiquei apaixonada pela estrutura charmosa de um bar feito literalmente de pedras. Diante das águas perigosas, Tunico brincava comigo:

— Num se assusta, moça! Se cair, eu pulo junto, e nois se afoga junto também!

Demos tanta gargalhada entre as conversas bobas. A gente estava se conhecendo de um jeito diferente, meio acanhados, mas loucos para quebrar o gelo logo. As prosas foram fluindo, alternando em profundidades que nos permitia ter acesso ao interior um do outro carinhosamente.

Era um jeito bonito de conhecer alguém; com calma, atenção e muito coração.

Por último, fomos ao Complexo Paraíso Achado, um lugar mágico com água boa para se refrescar, o que foi um bálsamo já que o calor estava de matar. Sentamos à sombra de uma árvore enorme, perto da queda d’água. Aproveitei o momento inspirador pra rabiscar umas ideias no caderninho que sempre carregava comigo. O som da cachoeira era constante, como um pano de fundo de calma. Tunico tirou o chapéu, bateu o pó da aba e me olhou, curioso:

— Intão, dona escritora… me conta. Que tipo de coisa cê escreve nesse caderno aí, hein?

— Romance — respondi, bebendo um gole d’água. — Daqueles com drama, confusão e uns momentos… digamos, quentes.

Ele riu alto, aquele riso que vibra na barriga.

— Ah, tendi. História de amô com tempero!

— É! — Sorri imenso. — Sempre gostei de escrever. Acho que desde que aprendi a ler. Livro pra mim é um refúgio, sabe? Um jeito de escapar da vida e, às vezes, de entendê-la melhor.

Tunico coçou o queixo, pensativo.

— Eu nunca fui muito de ler, mas acho um trem curioso isso. O povo perde tanta coisa boa porque acha que livro é difícil. Se as pessoas dessem uma chance, iam se apaixonar igual ocê.

— Verdade! — Concordei, extremamente encantada com a sua perspectiva. Se as pessoas pensassem assim além de serem mais cultas fariam os autores muito mais felizes.

Ele olhou pro horizonte, onde a luz do sol refletia nas pedras molhadas.

— Sabe queu penso parecido? Quando montei minha agência, teve gente que riu da minha cara. Diziam que ninguém ia querer andar de barco com um “caipira metido a guia”. Se o povo não tivesse confiado em mim, eu num tava aqui hoje, vendo essa vista comcê.

Aquela frase me deu um calorzinho no peito.

— E olha, dona escritora — ele completou, sorrindo de canto —, agora que sei do teu livro, vou panfletar pra todo mundo. Paulina vai ser a primeira a ler!

Paulina é a filha de Tunico, ele tinha me mostrado uma foto dela mais cedo. Uma menininha linda de trancinhas sobre os ombros e o olhar sonhador. Quando eu disse que era escritora ele contou que Paulina vive imaginando universos e adora os livros da biblioteca da escola. Fiquei louca para conhecê-la. Tenho tanto livro para indicar para ela – livros que marcaram a minha infância. Não tem nada mais belo que uma criança metida com a cara nos livros.

O que mais me deixou encantada foi o fato dele apoiar minha escrita ao ponto de querer divulgar meus livros sem nem me conhecer a fundo. Isso foi muito bonito da parte de Tunico, se a intenção é me conquistar, ele tá conseguindo bem direitinho.

— Melhor esperar ela fazer dezoito, viu? — Brinquei risonha. — Senão vai acabar aprendendo umas “coisas” meio cedo demais. — Indiquei aspas no ar com os dedos.

Tunico arqueou uma sobrancelha e me lançou aquele olhar safadinho, meio sorriso de canto.

— Ah, então cê escreve dessas histórias que ensina a cruzar?

Gargalhei alto, não pude evitar.

— É ficção, Tunico.

— Uai, mas se tiver inspiração real, eu aceito fazer parte da pesquisa! — Disse, fingindo seriedade, e eu ri alto de novo, jogando um pouco de água nele.

— Você é um safado!

A gargalhada dele ecoou pela beira da cachoeira.

— Num sô eu que tô escrevendo safadeza, dona escritora.

E naquele instante, o ar entre nós ficou leve, quase elétrico.

Essa não, meu coração tá dando umas batidas muito erradas. Já tô vendo como isso aqui vai terminar… e acho que não quero evitar.

 

 

— Preciso confessar, hoje foi um dos melhores dias da minha vida. Eu me diverti tanto, Tunico. — Sorri para ele, que retribuiu de imediato, mostrando sua alegria estampada de orelha a orelha.

Estávamos de volta à fazenda, estacionados em frente à porta de entrada, após deixar o último casal são e salvo na pousada que estavam hospedados.

— Ovô ser sincero. Pra mim foi muito especial também. Sua energia é contagiante, Lina.

Senti minhas bochechas esquentarem.

— Num quero ser aqueles caipira idiota. Então vou direto ao ponto: fiquei afinzão docê. Purisso quero sabe se ocê tá disponível. Se num tiver eu tiro meu time de campo. Mas caso esteja… eu tô com os dois pé dentro.

Juro, meu coração parou. Literalmente. Eu senti como se tudo ao meu redor tivesse congelado. Eu até segurei a respiração por um mísero segundinho, enquanto meus olhos analisavam os deles.

Minha santinha, por favor, não me deixa cair em golpe. Eu tô tão cansada de parar em mãos erradas.

E aqui estava ele… todo cavaleiro, gostoso, educado, carinhoso e suplicando por uma chance comigo.

Ok. Eu ainda estou respirando. Meu coração tá batendo sim. Descompassado, mas forte.

E Paulo Coelho tem razão.

Eu vou pular.

Quero pular.

E eu sinto muito decepcionar Elias.

— Pode firmar as botas, cowboy. — Devo estar tão vermelha enquanto respondo isso.

Tunico entende a resposta na hora e em câmera lenta ele se aproxima do meu rosto. Eu estava sentindo algo muito diferente de tudo que já senti na minha vida inteira. Foi um calor sobrenatural se apossando do meu corpo. As batidas do meu coração eram fortes e lentas. Minhas bochechas queimavam juntamente com o meu rosto inteiro. E não posso negar que meu íntimo pulsava, eu parecia uma cachoeira.

Era muito mais que tesão, porque as notas descompassadas dos meus batimentos cardíacos eram reais demais e sufocavam qualquer vontade de ficar pelada com aquele cara. Pelo contrário, eu só queria abrir a portinha do meu peito e entregar meu coração em suas mãos grossas e calejadas. Faria isso de olhos fechados, porque a minha intuição dizia que Tunico era aquele cara que tanto procurava e eu só tive algumas horas com ele e já tenho certeza disso.

Quando a gente – mulher – sabe, a gente sabe!

Assim como sabemos quando estamos nos entregando a homens-encrenca. O pior de tudo é que fazemos isso consciente. Parece que mulher pede pra sofrer. Mas eu me recuso a continuar vivendo de forma medíocre. Eu escolho meu próprio destino!

A boca de Tunico encostou-se a minha com uma gentileza extraordinária, lentamente seus lábios macios foram envolvendo os meus. Mas o pivô foi quando a pontinha de nossas línguas se esbarrou e a chama que domava nosso ser, virou fogueira de São João.

Agarrou-me pelos cabelos, puxando-me para seu colo e me beijou como nunca fui beijada na vida. Com desejo e pura luxúria.

Acho que nunca me entreguei a esse tipo de contato dessa forma, como se ele pescasse minha alma com os lábios. Só percebi que estávamos de testas coladas e regulando a respiração quando meu coração começou a se acalmar. Ficamos assim um tempão, só com a respiração um do outro batendo sobre os lábios. Ele ainda agarrado ao meu cabelo, minhas unhas fincadas em sua nuca.

Era coisa de outro mundo.

A gente não sabia o que dizer um pro outro, então apenas sorrimos feito um casal de adolescentes apaixonados.

— Eu te pego amanhã, antes do pôr do sol.

— Ah, é? O que vamos fazer?

— Uai, o peão aqui tem seus segredos, moça. Ocê vai ter que pagar pra vê.

— Então é melhor me mandar o pix. — Pisco para ele e escorrego do seu colo de volta para o banco do passageiro. — Te vejo amanhã, caipira.

— Eu já tô contando os segundos.

 

 

Assim que fechei a porta atrás de mim, encostei as costas nela e deslizei até o chão. O corpo ainda pulsava com o beijo – o gosto de café, o cheiro de mato, o toque firme do Tunico em minha silhueta, o jeito como ele disse meu nome entre um suspiro e outro.
Mas junto com o calor vinha um frio estranho, uma pontada de culpa que me atravessou o peito como faca.

Apoiei a testa nos joelhos, tentando respirar.

Agora, sozinha, eu tinha que tomar a minha decisão definitiva e descer do muro. Ou pular de vez, me estabacando de cara no chão. Quebrar a cara, errar, faz parte afinal do processo de viver. É inevitável e eu não podia mais estender essa situação.

— O que foi que eu fiz? — Murmurei, mais pra mim mesma do que pra qualquer fantasma que pudesse estar ouvindo.

Elias.

O nome dele veio suave, mas latejante, como uma lembrança teimosa. Aqueles olhos que me viam além da carne, aquela presença que me arrepiava mesmo sem toque.

Ele era… impossível. E talvez fosse justamente isso que me atraía tanto.

Mas amar o Elias era como tentar abraçar fumaça – bonito, intenso, mas sufocamento certeiro.

Fechei os olhos e tentei não chorar.

Tunico tinha vida, cheiro de mato e riso fácil. Com ele, eu podia existir de verdade.

Com Elias… eu só sonhava com uma vida impossível.

Engoli o choro que ameaçava vir e deixei que uma lágrima escapasse mesmo assim.

— Você precisa seguir, Lina. — Falei comigo mesma, forçando-me a me erguer daquele chão. Não tinha como eu me afundar ainda mais no fundo do poço, não é mesmo? — Ele já tá preso aqui tempo demais. E você também.

Passei a mão no rosto e ri sem humor.

A decisão mais sensata estava clara: Tunico era o certo, o possível, o vivo.

Mas por que o coração sempre insiste em doer quando a gente escolhe o que é certo?

Fiquei ali, sentada no chão frio da sala, abraçada às próprias pernas, tentando convencer o peito a obedecer a razão.

Lá fora, o vento balançava as janelas como se risse da minha tentativa de ser lógica num mundo onde até os mortos se metiam nos meus sentimentos.

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