Epílogo
Ele ainda está por aqui, mas já não morde mais.
Lorraine Warren: “Eu levei muito tempo,
mas finalmente achei alguém que acreditou em mim.”
“E o que você fez então?”
“Casei-me com ele.”
— Invocação do Mal
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O casarão já não era mais assombrado – ou, pelo menos, não do jeito de antes. Agora era lar. Eu e Tunico nos casamos, e a vida seguiu como nos livros que eu mesma sonhava escrever. Já éramos abençoados com Paulina, que se tornou uma filha para mim. Mas a vida tinha planos ainda maiores para nossa família… minha barriga já começava a desenhar a curva de um novo futuro: nosso primeiro filho. Um menino. Vai se chamar Antônio Elias.
A fazenda floresceu junto com a gente. Agora exalava o cheiro forte de café, mas também carregava a delicadeza dos canteiros de morango que cultivamos. Era como se tradição e recomeço se dessem as mãos.
A propriedade inteira passou a exalar um perfume etéreo de calmaria, como se a terra quisesse descansar após tanto segredo. A gruta, antes escondida, se tornou ponto turístico exclusivo da agência de Tunico, o que se tornou destaque em Capitólio. Afinal, quem não quer conhecer a cachoeira do fantasma, depois parar para colher morangos frescos e tomar um cafézinho recém-moído?
A gruta ganhou o nome que merecia: Gruta de Elias. E cada visitante que entrava lá parecia ouvir, mesmo que de leve, o piano em sintonia com o barulho da água.
Foram tempos de aventura, de descobertas e de amor.
Agora, sentada na sala da casa grande, eu dava mais uma entrevista. Meu livro tinha se tornado um sucesso inesperado – e estava prestes a virar adaptação da Netflix. A jornalista ajeitou os óculos e inclinou-se para frente, a pergunta que parecia queimar em sua língua desde o início da entrevista:
— Lina, me diga… você realmente vê fantasmas? Essa é a pergunta que encheu minha inbox de mensagens dos seus leitores: tudo o que você narrou aconteceu de verdade? O fantasma de Elias apareceu para você?
Sorri, respirando fundo. Porque agora eu sabia. Eu descobri meu dom: os fantasmas vinham até mim, pedindo que suas histórias fossem contadas. Em troca, eu escrevia. Não de forma mórbida, mas para que ninguém jamais os esquecesse. Eu virei, enfim, uma escritora de fantasmas.
Mas esse era um segredo para poucos…
Senti a pressão suave da mão de Tunico envolvendo a minha. Olhei para ele, e aquele sorriso tranquilo que só ele tem, me trouxe de volta à calma. Sou tão grata por encontrar alguém que acredita em mim, que confia no meu trabalho e me respeita imensamente.
Então ergui os ombros, como quem aceita um mistério insolúvel.
— Essa pergunta vai precisar ficar sem resposta. Acho que cada um de nós sabe em que acreditar.
E como diria Chicó, completei com um meio sorriso:
— “Não sei… só sei que foi assim”.
Olhei para Tunico, que piscou para mim como quem já se acostumou a viver entre o visível e o invisível. Apertei a mão dele e brinquei:
— Se prepara, amor… o que o fantasma uniu, nem reza braba separa.
Tunico riu, balançando a cabeça, e respondeu com aquele jeitinho dele:
— Ah, intão vamo fazer as paz… ele fica com o piano, eu fico comcê, minha cabritinha!
E me puxou para um daqueles beijos que faz o sangue correr mais rápido. Entregar meu coração nas mãos desse cowboy foi uma das melhores decisões que tomei na vida. O nosso amor só cresce a cada dia e a prova disso é vê-lo transbordar em nossos filhos. É libertador perceber que sou inteiramente feliz, mesmo com todas as minhas cicatrizes e defeitos. Eu, Maria Lina, tenho história além da conta para contar. Tenho tudo que pedi pra Deus…
Leva um tempo, mas a gente acaba compreendendo que o passado, o presente e o futuro podem até se misturar, mas o amor… ah, o amor é a única luz que não se apaga. Nessa vida de nasceres e morreres, o amor é o único que vive pra sempre.
Enquanto a câmera desligava e a entrevistadora guardava suas coisas, a janela bateu sozinha, fazendo as cortinas dançarem como se uma brisa viesse de dentro. Um segundo depois, as teclas do piano tocaram uma única nota, firme, cristalina, que ecoou por toda a sala.
Sorri para o vazio, sem medo algum.
Ali, entre risos, memórias e notas soltas do piano, soube que estávamos finalmente completos.
Elias ainda estava por aqui.
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