Capítulo 13
Levei uma sapatada na cabeça… e tô vivo pra contar.
– TUNICO, O CAIPIRA –
“Este dia está sendo maravilhosamente perturbador.”
— A Família Addams
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Olha… vou te falar, entrar na casa daquela moça logo de manhã, depois da noite que a gente teve, foi a maior coragem que já senti. Eu, que sempre entrei em arena sem medo de touro bravo, tava com o coração batendo mais do que sino em procissão.
A tal da Lina abriu a porta com um jeito meio apressado, e eu reparei que ela nem me encarava direito. Sabe quando o véi finge que tá normal, mas a cara vermelha entregava tudo? Pois é. Eu quase soltei: “cuidado que sua cara tá denunciando mais que fofoca de vizinha”, mas segurei.
O que não entendo é: por que diabos ela tá com vergonha? Não tem ninguém aqui… ao menos, espero que não. Mas se tinha alguém que sabia os segredos profundos dessa fazenda mal-assombrada, era Maria Lina. A moça é a única empregada que ficou aqui por mais de dois dias. Eu já vi cabra macho sair aos tropeços daqui como o diabo corre da cruz.
Do lado de dentro, o silêncio da casa era… estranho. Parecia que tinha gente ali, só que não tinha, não que eu pudesse ver (graças a Deus). Nunca me senti tão grato pelo dom do meu bisavô Espedito passar bem longe de mim.
Mas nem de tudo esse peão aqui é imune, eu senti logo de cara. O ar tava pesado, friozinho subindo pelas costas. Arrepio que nem banho de baldão frio de madrugada.
— Vou me trocar rapidinho. — Anunciou Lina, toda apressada.
Ela me deixou na sala e correu escada acima. Só que, antes de resolver subir, juro por tudo que há de sagrado que vi ela cochichar baixinho pro nada, tipo quem dá satisfação pra alguém invisível. “Não mata o caipira do coração…”, falou, olhando pro canto vazio.
Eu franzi a testa: — Uai… será que a moça tem cachorro?
Fiquei plantado ali, de chapéu na mão, observando a casa que cresci ouvindo ser amaldiçoada. Nunca duvidei dessas coisas. Vó Elvira mesmo já viu alma-penada pra uma vida inteirinha.
Cruzes! Só de pensar me dá arrepios. Já custo lidar com vivo, imagina só ver morto. Faço o sinal da cruz e uma oração breve a Santo Antão.
Me acomodei no sofá da sala de estar e tive que desviar o olhar do quadro com a pintura do seu Osvaldo e dona Claudiana que são os falecidos donos desse lugar. Que Deus os tenha – e que os tenha de fato, imagina só bater as botas e ficar vagando por aí?
Como uma moça tão bonita tá aguentando viver nessa casa fria e sem vida? Tudo tá sujo por demais. Tem teia de aranha até no ar. Ratos devem ser comuns igual formiga doce nessa casa. Coitadinha da Maria Lina!
Aí, meu Santo Antão, só de pensar nela meu coração dispara.
Arriei as quatro patas por essa mulher. Já era. A paixão laçou de jeito. E sou touro bravo quando se trata de amar, ninguém consegue conter. Minha vontade é de colocar essa mulher no lombo da minha mula e correr para a capelinha mais próxima, botar um anel dourado no dedo dela e fazê-la feliz até nós ficarmos bem velhinhos.
O jeito que ela se entregou para mim ontem, como mulher nenhuma nunca fez, nem mesmo minha ex-esposa – que amei feito um palhaço. O que acontece entre a gente é diferente. Mainha sempre dizia existir uma única mulher que ia me domar de jeito, e que, no fundo do meu coração, eu ia saber que era a certa pra mim. Tô achando que mainha tem razão, visse?
Não foi pelo sexo, nada disso. Cruzar com Maria Lina foi só uma consequência do que sentimos. Uma entrega íntima a algo muito maior que nós dois. Eu tô falando de como me sinto quando estou com ela.
De como ela sorri sincero, do seu cabelo selvagem, das írises de esmeralda que mais parece vitral de igreja bonita, o jeito que vejo o mundo através dos olhos dela. É como se tudo se encaixasse. É como saltar do alto de uma cachoeira de olhos fechados, sem medo de morrer na queda. Ela me dá segurança. E eu amo cada detalhe dela, o fato dela ser escritora, de escrever sobre o amor – o sentimento no qual mais acredito nesse mundo.
E olha, eu já tinha perdido as esperanças de voltar a amar. Pensei que as únicas mulheres da minha vida seriam mainha, vóinha, minha irmã e minha Paulina. Mas o universo trouxe essa vizinha cheia de coragem só para me dar mais uma chance de ser feliz.
Eu confesso, tava vivendo feito morto-vivo. Fingindo que estava 100% feliz. Não queria ser um burro ingrato, porque tenho tudo: família, saúde, fé, talento, dinheiro, sucesso… Mainha sabe a verdade. Vez ou outra pegava ela me encarando meio triste. Sei que ela conseguia perceber que, no fundo, tô mais vazio que galinheiro durante o dia.
Não dá pra viver sem amor. Aposto que nem fantasma aguenta o vazio de não ser amado.
Aí, chega de lamúria. Tô parecendo viúva em velório, não paro de chorar. Num me estranhe, sou cabra macho (mentira, homem também chora, mas a gente evita, né? Afinal, a vida tá aí, não adianta se lamuriar, o negócio é resolver os problemas).
Reparei no piano antigo no canto da sala. Quando eu era menino vinha rodear a casa com meus primos. Desafio de criança encapetada. Quem tem coragem de bater na porta? Olhar dentro do poço. Tacar pedra na janela… Essas coisas de menino precisando levar umas palmadas. Não tínhamos coragem de entrar, mas ouvíamos o piano tocando lá de fora. Só um rabo de saia bonito pra me fazer entrar nessa casa.
De perto o piano é até bonito, mas tinha um ar meio… sei lá… amaldiçoado.
De repente, as teclas tocaram sozinhas.
PAM!
Uma nota alta e seca que ecoou na casa inteira.
Pulei que nem gato assustado, bati o joelho na mesa e soltei um palavrão baixinho.
— Credo em cruz! — Benzi-me correndo. — Mainha já dizia: quando piano toca sozinho, a morte tá chamando.
Saí quase correndo pela escada, gritando:
— Liiiina! O trem tá vivo aqui dentro, muié!
Ela apareceu rindo, os cachos balançando, toda divertida, como se eu tivesse contado piada.
— Tunico, calma. Eu te disse, os fantasmas daqui são inofensivos.
Eu congelei. Fantasmas? Ela disse fantasma como quem diz “cachorro” ou “galinha de estimação”.
— Mas ocê tá rindo, moça! Eu vi o piano bulir sozinho, num tô doido não!
Ela segurou meu braço, tentando me acalmar. Só que, antes que eu respirasse direito, senti um vento do nada e… PÁÁÁ! Um sapato voou do canto e me acertou em cheio na cabeça, derrubando meu chapéu.
— AÍ! — Berrei, segurando o local da pancada. — Quem foi o Zé dend’água que jogou isso?!
Olhei em volta. Nada. Só o ar pesado.
Inofensivo. Foi o que ela disse, visse?
Lina tapou a boca, rindo mais ainda.
— Eu te disse que eles eram travessos.
Travessos?! Mulher, travesso é cabrito pulando cerca, não sapato voador na casa da gente! Mas, fazer o quê? Respirei fundo, pesquei meu chapéu de volta e botei na cabeça, tentei parecer um homem corajoso.
— Lina, se arruma logo que eu tô quase picando a mula! — Falei, só meio brincando.
— Calma, touro brabo. Eu já tô quase pronta. — Disse enquanto sumia porta afora.
O que é que eu não faço pela minha cabritinha?
Mais uma vez fui deixado sozinho. Acho que orei o terço inteiro. Já tava quase pensando que viraria vítima do chupacu quando Lina apareceu linda, mapa na mão, pronta pra aventura. Eu fingi que nada havia acontecido e botei um sorriso valente. Se tinha fantasma mesmo, que se resolvesse entre eles – eu ia era cuidar de proteger a minha mulher.
— Pronto para mais uma aventura?
— Passou repelente? Se num passa os musquito te come viva. — Não consegui evitar um sorriso travesso diante do pensamento que entrecortou minha mente: — Isso, se eu num te come antes…
Ergui as sobrancelhas sugestivamente.
— Antônio Tunico! — Ela repreendeu, dando risada. — Não se preocupe! Tô pronta para enfrentar os desafios da natureza.
Não sei como ela pretende fazer isso com essas pernas inteiras de fora nesse shortinho que deixa ela igualzinho a Tia Turbina – daquele filme de robozinho que minha filha gosta.
Enfim, deixamos os fantasmas de lado e tomamos caminho de casa. Quer dizer, da cachoeira, né?
Ajudei Lina a subir no lombo da Rubi – minha égua mais astuta – e comecei a seguir o mapa dentro da propriedade da Fazenda do Vale Verde.
O sol brilhava forte, e conforme a gente avançava pela mata, comecei a me sentir melhor, como se o ar ruim da casa tivesse ficado pra trás. Lina parecia mais leve também, grudadinha em mim. Mas tinha horas em que ela ficava quietinha, olhando pro nada e… sussurrando sozinha.
Não tem jeito, eu sou mesmo um ímã para mulher biruta. Mas não é que gosto? Acho que é o charme que me pega.
— Tunico, você também tá ouvindo? — Perguntou de repente.
Arregalei os olhos.
— Uai, ouvindo o quê?
Ela riu nervosa e desconversou. Mas eu vi. Vi direitinho o jeitinho dela, como quem conversa com alguém invisível. E olha… no interior, a gente aprende: quem fala sozinho não tá sozinho de verdade.
Arrepios de novo. Parecia que alguém mais estava ali com a gente, só que eu não conseguia ver.
Mas mesmo com medo, eu sabia: onde ela fosse, eu ia atrás. Nem que fosse pra enfrentar assombração de braço dado.
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