Capítulo 7

Um sotaque de molhar calcinhas.

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– LINA, A ESCRITORA –

“Não me importo se você me chamou,
mas agora que me chamou… vamos brincar?”
— Os Fantasmas se Divertem

 

O tropel firme dos cascos ecoou pelo terreiro, e quando abri a porta quase perdi o ar.

Ele estava montado em um cavalo marrom robusto, com a naturalidade de quem nasceu na sela. A barba cerrada e o maxilar firme lhe davam um ar másculo, mas o sorriso fácil, quase sempre pronto a aparecer, revelava uma simpatia irresistível. O chapéu de aba larga escondia parte do olhar, mas não a expressão tranquila e confiante de quem nunca tem pressa – a vida, para ele, parecia seguir o ritmo sereno do campo.

Vestia jaqueta jeans gasta, com os botões de cima abertos e a camiseta branca entregava o contorno dos músculos do seu peitoral, mangas arregaçadas até os cotovelos, e calça jeans marcada pelo uso, como se cada fio carregasse uma história de sol, poeira e trabalho duro. Não havia nada de ensaiado nele: apenas autenticidade.

Aquela pele dourada pelo sol escaldante do verão em Capitólio, mesclada a porções generosas de músculos, tornava aquele homem impossível de se resistir.

Alguém me segura! Ele é a personificação da música Country Boy do Alan Jackson. Que, por sinal, amo de coração.

E eu, como uma boa besta, fiquei plantada na porta abraçando a cesta que ele acabara de deixar, tentando disfarçar que estava hipnotizada.

— Você… me chamou? — Perguntei, meio sem jeito.

Ele franziu a testa e riu de canto.

— Chamar? Ora, eu num chamei não, moça. Só vim deixar o de sempre.

Foi aí que ele falou de novo. E eu ouvi. O sotaque caipira, puxado e cheio de graça, lembrava o jeito de falar do Chico Bento crescido. Era um charme irresistível, natural, que fazia o “s” arrastar de um jeito engraçado, doce e completamente sensual. Já o “r” vira um retroflexo, que puxa lá do fundo da boca. Um som que arrebatava risadas sem esforço.

Nem todo mineiro fala assim, preciso deixar claro. Na verdade, é bem raro. Elias e eu somos mineiros e nosso sotaque se encontra em apenas algumas palavras e expressões. E apesar de ele ser um homem adulto e ter provavelmente frequentado a mesma escola que todos nós, deve ter vindo do interior mais raiz de Minas, onde pode ser mais comum encontrar um ou outro com o sotaque e a expressão linguística regional mais forte.

Do lado, Elias, encostado na parede, fingia bocejar de tédio, como se dissesse: sério que você vai na lábia desse sorrisinho de fazendeiro, Lina?

Eu quase gargalhei, mas mordi o lábio para conter.

— Então… por que bateu na porta?

— Nunca bati em porta nenhuma, não. — Ele desmontou devagar, com a calma de quem tem o tempo como aliado.

— Mas fiquei curioso por demais. Uma semana inteirinha e nem sombra docê. Já tava achando que ocê tinha se misturado com os fantasmas da casa… ou queu ia encontrar seu corpo no porão.

Soltei um riso nervoso. Ótima forma de quebrar o gelo, cowboy.

Elias, atrás dele, começou a encenar um assassinato dramático, caindo de joelhos e segurando o pescoço como se fosse degolado. Eu tossi, tentando disfarçar o riso.

— Ocê tá rindo de quê? — O fazendeiro arqueou a sobrancelha.

Eu quis bater em mim mesma: como alguém consegue se derreter por um simples “ocê”?

— Do nada! — Respondi rápido, mas meu rosto queimava. — Bom, se não foi você quem bateu… só pode ter sido os fantasmas, não é mesmo?

— Se foram, eu tô agradicido por finalmente pudê conhecê ocê, ora.

É impossível não ficar sem graça.

— Aliás, eu sou Maria Lina. Mas pode me chamar de Lina.

Sua mão imensa foi imediatamente estendida na minha direção e quando troquei o aperto, senti quão grossa e grande era. Com calos imensos nas palmas. É o jeito que ele me apertou, envolvendo minha mão inteira, era por si só muito acolhedor. Caramba, nunca pensei em como calos nas mãos poderiam ser tão sexy.

— Antônio Nascimento. — Tocou a aba do chapéu, num charme que só. — Mas todo mundo me conhece por Tunico.

Enquanto eu me derretia inteira, Elias começou a aprontar. O chapéu do fazendeiro foi levantado por uma brisa fantasmagórica, o cavalo bufou nervoso sem motivo e, dentro da sala, o piano desafinado soltou umas notas soltas, como se alguém tivesse deixado um gato andar sobre as teclas.

— Que barui foi esse? — Tunico olhou para dentro da casa.

— Barulho? — Falei rápido. — Deve ser… rato. Rato pianista. Coisa comum. — Mordi a língua, e Elias quase caiu de tanto rir.

Tunico franziu a testa, claramente achando que eu era doida varrida. Ele tirou o chapéu para evitar que fosse levado pelo vento.

Só então pude notar melhor seu rosto. E o resultado é um cenário digno de um AVC.

O cabelo castanho-escuro, levemente ondulado e desalinhado, caía sobre a testa e o contorno do rosto como se o vento tivesse esculpido cada fio com carinho. Tinha volume, movimento e aquele ar selvagem de quem não se importa com perfeição – mas, paradoxalmente, isso só o deixava mais irresistível.

O rosto era marcado e atraente, com traços fortes que combinavam seriedade e calor. A barba cheia e escura emoldurava o maxilar definido, conferindo-lhe uma aparência madura e rústica. O nariz firme e proporcional, a boca que alternava entre sorrisos fáceis e expressões concentradas, e o olhar profundo – que atravessava a sombra dos fios de cabelo – faziam dele alguém capaz de transmitir ternura e confiança ao mesmo tempo.

Sua pele carregava o sol e a poeira do campo, bronzeada e viva, mas nada tirava a sensação de calor humano que exalava. Vestia roupas simples, gastas pelo uso, mas cada detalhe parecia contar uma história de vida autêntica: o tecido áspero, as mangas arregaçadas, a calça jeans marcada pelo trabalho duro. Não havia necessidade de acessórios, nem de falsos sinais de status – ele era genuíno, e isso já era sedução suficiente.

— Nossa, você parece ser bem musculoso. Trabalha muito no campo?

Um sorrisinho escapou dos lábios do caipira.

— Cê sabe, né? Eu num paro quieto. Além de ajudá na fazenda do meu pai, também sô dono de uma agência de turismo aqui em Capitói.

Conversamos um pouco – na verdade, foi ele quem conduziu, com aquele jeito respeitoso e caloroso, como se me conhecesse de longa data. Descobri que guiava grupos em trilhas, cachoeiras e passeios de 4×4. Além de lanchas que cruzam a Represa de Furnas e voos surreais de balão. Caramba, isso deve dar dinheiro.

— Amanhã cedo, tô levando uma turma pra ver o sol raiar na serra. Depois vamos fazer um roteiro de 4×4. Quer ir junto? — Perguntou, ajeitando o chapéu.

— Eu? — Quase engasguei. — Ah, não sei, tô ocupada, tenho… compromissos. — Fiz gestos vagos para o nada, tentando inventar desculpas.

Elias, por trás dele, cruzou os braços e me encarou firme. Depois, simplesmente fez sinal com a cabeça: vai.

— Não é uma boa ideia. — Murmurei baixinho, mas Elias levantou a sobrancelha, desafiador.

— O que num é boa ideia? — Tunico riu, confuso.

— Nada! — Falei, rápido demais. — Eu… aceito o convite.

Tunico sorriu satisfeito, e Elias revirou os olhos, mas havia orgulho escondido nele.

— Te pego às 4h30 amanhã. — Avisou o cowboy.

Meu amor, você pode me pegar a hora que quiser. Ops, escapuliu!

Ele montou de volta no cavalo, despedindo-se como se não tivesse causado terremoto nenhum dentro de mim.

Quando fechei a porta, larguei a cesta em cima da mesa e só então me lembrei: a cachoeira. Eu tinha prometido investigar a morte de Elias.

— Maldição. — Resmunguei.

Mas a voz dele veio fria e suave:

— Pode esperar. Vá se divertir um pouco.

— Não seja bobo, Elias. — Olhei em volta, tentando encontrá-lo. — Depois de ontem, você acha mesmo que vou querer me distrair? Eu quero você.

Sua resposta inicial foi apenas silêncio. Depois senti um vento gélido passando pelas minhas pernas, se afastando.

— Você merece mais que um fantasma, Lina… — Murmurou, quase inaudível.

— Como é? — Semicerrei os olhos, uma sensação dolorosa começou a consumir meu peito.

— Vá com Tunico e o resto a gente vê depois.

— Mas…

— Só por favor, vá. Preciso ficar um pouco sozinho…

— Achei que estivesse cansado de ficar sozinho. — Contrapus, sabendo que tudo que ele mais queria era companhia após 68 anos de solidão. Mas ele não me respondeu. — Elias…?

Só havia o piar dos pássaros lá fora e o tique-taque distante do relógio de pêndulo. Fiquei ali, abraçada à cesta, desejando um homem de carne e osso… enquanto me apaixonava cada vez mais por um fantasma.

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