Capítulo 11

Confissões do coração (e da calcinha).

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“Você é totalmente maluco.
Mas vou te contar um segredo.
Todas as melhores pessoas são.”
— Alice no País das Maravilhas

 

 

Tunico me levou para um deck às margens Represa de Furnas. Com todo seu cuidado meio bruto (e adorável) de caipira, me ajudou a entrar na lancha como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo, segurando minha mão e guiando meus passos com atenção. O coração disparou com a gentileza dele, o jeito cavaleiro e atento.

A lancha começou a deslizar suavemente pela água, precisei colocar meus óculos de sol, os últimos raios do dia estavam me abraçando como um cobertor. O vento produzido pela lancha chacoalhava meus fios de cabelo para todos os lados. Peguei o Tunico me admirando com expressão abestada.

— Óia só procê… — Disse, com os olhos brilhando. — Tá um espetáculo. Parece que o sol nasceu pra te iluminar.

Só pude sorrir, sentindo meu rosto esquentar. Acho que acabei sendo sugada para um universo paralelo dentro dos livros do Nicholas Sparks.

Paramos para observar de longe a Usina Hidrelétrica de Furnas, e ele segurou minha mão com firmeza, como se estivesse me protegendo do mundo. Senti uma agonia imensa quando ele me contou que, sob aquelas águas, não havia só casas, mas bairros inteiros. E que, às vezes, quando o nível baixava, era possível ver os telhados surgirem.

Conforme nos aproximávamos das atrações de Capitólio, fui percebendo a beleza do fim do dia se espalhando pelos Canyons. Tunico contou histórias de cada lugar, do Vale dos Tucanos, do rochedo com formato de coração, da vegetação, mostrou-me o bar flutuante. Garantiu que a tirolesa do Parque Pauá era uma experiência irrecusável. Enquanto o admirava – todo cowboy capitão –, sentia o vento me envolver, dando a sensação de liberdade.

— Sabe, Lina… — Começou, com um tom mais sério. — É bom por dimais está com alguém que sabe apreciar cada coisinha pequena. — Ele olhou para mim e sorriu. — E ocê… ocê tem isso, visse?

Acho que esse cowboy acaba de ganhar meu coração.

 

 

Pequenos pontinhos de luz ameaçavam enfeitar o céu conforme a noite se tornasse mais densa. Tunico pegou a mochila que trouxe, estendeu uma manta bordada com mamões sob o assento da lancha e começou a preparar uma espécie de piquenique.

Abrimos um vinho e organizamos uma tábua de frios: salaminho, queijo, chips de provolone, azeitonas, uvas, morangos e chocolate. Cada mordida era uma explosão de sabor, cada gole de vinho uma risada compartilhada.

Falei dos meus livros para ele, contei sobre minha pilha de boletos e o que me levou a aceitar o emprego numa fazenda mal-assombrada. Ele me ouviu como quem escuta algo sagrado. Cada palavra que saia da minha boca lhe interessava. Depois ele me contou tudo sobre a sua vida.

Tunico tem 35 anos e é pai da pequena Paulina, de 7 aninhos. Ele fala da filha com tanto carinho, é lindo demais ver um homem que é pai de verdade. Coisa rara de se encontrar hoje em dia. No caderninho de boas maneiras em um homem, certamente devemos nos atentar ao jeito como ele se refere às mulheres de sua família. Tunico passou no teste, ele trata a mãe, a avó e a irmã como deusas. Fiquei encantada ao ouvi-lo falar.

Ali, sentados lado a lado na lancha, com milhares de pontos de luz enfeitando o céu noturno, finalmente me senti segura para abrir meu coração:

— Tunico… — comecei, hesitante — …preciso ser sincera. Você me perguntou se eu estava livre, e sim, eu estou. Mas tem outro homem na minha vida. Alguém que conheci recentemente e que abalou completamente as minhas estruturas. Mas… nosso relacionamento era impossível. Tive que terminar.

Ele ouviu com atenção, baixou a cabeça meio decepcionado.

— Além disso, é bom que saiba que venho de um histórico de relacionamentos traumatizantes. Quase virei estatística do Balanço Geral, se é que me entende… então é muito difícil para mim confiar. Se tô aqui com você agora, é porque você me demonstrou confiança. E espero de todo o coração não ser decepcionada.

Tunico tocou meu joelho com firmeza, demonstrando compreensão, com um leve sorriso triste.

— Se um dia eu machucar uma muié, que Deus atire um raio contra minha cabeça. Prefiro murre duque fazer isso.

Baixei a cabeça, assentindo de leve.

— Eu te entendo, moça. — Seus dedos buscaram pelos meus, enrosquei os meus aos dele com firmeza. — Também já passei por coisas complicadas… fui casado por um tempo com a mãe da Paulina. A muié me deixou pelo meu mio amigo. Os dois se atracava debaixo do meu teto, bem na minha cara. Num é fácil se abrir depois disso.

Fiquei sem palavras. Que coisa horrível de se viver.

— Ela sumiu com mia fia, mas não deixei de lado. Fui atrás. Ela acabou me entregando a guarda da Paulina. E agora somos só nós dois. É claro, mainha me ajuda por demais. Sou muito grato aos meus pais por tudo. — Ele suspirou profundamente, tomando todo o restante do vinho em sua taça de uma vez. Encarou a noite quando prosseguiu: — Eu confesso, tava de caso longo com uma moça daqui. Mas a gente é tipo cão e gato, só se resolvia na cama. Ficamo pra lá e pra cá, num era saudável. Então botamo um fim na história. Só que, às vezes, a gente se encontra só pra cruzar e aliviar o estresse, sabe?

Assenti prontamente.

— É isso, essa é minha história. Minhas cicatriz. Tu num precisa ter medo comigo, moça. Pareço bicho do mato, mas sou touro manso. A verdade é que, só quero ser feliz com minha pantera. Caçar um canto pra nois esticar as perna, viver uma vida gostosa por demais a dois. Ter uns minino. — Tunico deu risada. — Tu deve tá achando que sou um cabeça de véi.

— Tunico… — Me aproximei sutilmente. — Na verdade, isso é lindo, são características que buscamos num homem. Coisas simples, que todos deveriam ter, mas que estão em falta hoje em dia, entende? Sabe o que eu acho? Que a gente não deve colocar a carroça na frente dos bois. Vamos viver o momento e deixar isso que está acontecendo nos guiar.

Senti um laço se formar entre nós naquele momento.

— Gosto da sua sinceridade, Lina. É refrescante. — E depois, baixinho, quase um sussurro: — A gente merece ser feliz de verdade, num é?

— Merecemos sim. — Encostei minha cabeça no ombro dele e desfrutamos da noite fresca de mãos dadas.

Por um tempo foi só eu, ele, o barulho tranquilo da água, uma dose de álcool no sangue e grilos soando ao longe. Aproveitei a confiança e criei coragem para falar sobre o mapa da Fazenda do Vale Verde. Contei tudo, claro, escondendo os detalhes sórdidos.

— Preciso de ajuda para chegar até a cachoeira. — Fui direta, mas sem revelar os verdadeiros motivos. — Não sei se reparou, mas sou uma ameaça a mim mesma, se eu for sozinha, bem capaz de encontrarem meu corpo boiando na água daqui a uns dias.

— Valha-me nossa senhora, num diga uma coisa dessas, moça. — Tunico fez o sinal da cruz. — Mai pra mim é uma honra te levar lá, num se preocupe, amanhã mesmo nois vai.

Seu entusiasmo era contagiante, e a aventura ao lado dele parecia garantida. Depois ele quis saber como achei o mapa, e eu disse que como boa fofoqueira fiquei futricando a casa toda. Achei curioso que ninguém parecia conhecer a tal cachoeira, parecia um segredo da família Santos.

E se fosse um segredo, estava prestes a ser revelado.

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