Capítulo 4
Arrepios na cama (não é o que cê tá pensando).
“Sou fofo, sou amigo…
e totalmente inofensivo.
Quase sempre.”
— Gasparzinho
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Se tem algo que descobri rápido sobre trabalhar e conviver com fantasmas, é que eles não têm horário comercial. Enquanto todo mundo dormia em Capitólio, eu estava deitada na cama, conversando com Elias como se estivéssemos em um café literário qualquer. Ele jogado no ar, flutuando ali perto do teto, fazendo caretas cada vez que eu demorava mais de cinco segundos para responder.
— Você demora mais que carroça em dia de chuva, sabia? — Ele resmungou, cruzando os braços.
— Olha, eu estou tentando processar tudo que você tá me contando! — Respondi, meio indignada, meio fascinada. — É muita informação de uma vez!
Em minha defesa, sou uma mente criativa ambulante e preciso processar as informações minuciosamente, ou não seria a escritora que sou. Posso não ser lida, mas sei meu potencial, tenho muito talento e quero usá-lo com sabedoria. Então, sim, degustava tudo que estava descobrindo nessa uma semana, com uma demora excessiva.
Meu coração batia rápido, e minhas mãos suavam só de tentar acompanhar tanto detalhe.
— Informação, né… — Elias suspirou, olhando pra mim como se eu tivesse dito a maior besteira do mundo. — No meu tempo, as pessoas respondiam rápido. Quer dizer, até o relógio era mais rápido do que você.
Nossas noites eram assim, com meu fantasma sarcástico e safado me empanturrando de histórias da sua época. Para mim só faltava pipoca e refrigerante, eu ouvia tudo com atenção e tentava anotar tudo o mais rápido possível no meu caderninho.
Elias faleceu aos 18 anos por volta de 1955-1957, ele não sabe o ano ao certo. Que loucura! Ele é só um adolescente. Embora sua postura seja de um homem que viveu muita coisa. E de fato é, já que faz cerca de 68 anos que ele tem 18 anos. Bizarro!
Contudo, acho que isso explica porque ele mistura uns termos meio antiquados com uma fala mais atual. Elias pertence há dois séculos diferentes. Mesmo não falando com ninguém, ele ficou aqui, junto da mobilha ouvindo tudo ao seu redor. Eu, particularmente, acho muito fofo seu jeitinho de se expressar. É como se ele tivesse duas personalidades, ora o galã do século 18, ora o rapaz do século 21.
Quando dei por mim, estava em uma entrevista com um fantasma. Sentindo o cérebro fritar, enquanto ele contava da família dele, dos pais, e daquela última memória que ainda apertava seu peito: a noiva Ester, o casamento marcado, o horário exato – 11 de setembro, 10h da manhã, na Igreja de São Benedito (mas, spoiler, ele nunca chegou lá…). Cada detalhe era como se eu estivesse lendo uma história real de suspense, mas com o bônus de estar falando com o próprio protagonista.
Não foi assim que fui parar em uma clínica psiquiátrica?
— Então… você tinha tudo planejado e bum! — Fiz gestos exagerados, imaginando a cena. — Morrer e se tornar um fantasma, sem aviso. — Podia sentir a frustração dele se materializar no ar.
— Bum?! — Elias arregalou os olhos como se eu tivesse ofendido a memória de alguém muito importante. — Não é “bum”! É traumático, Lina! Trau-ma-tí-co!
— E tudo que você sabe depois que faleceu, é que seus pais acham que você fugiu. — Eu estava repassando os tópicos que anotei e confirmando tudo com ele, isso facilitava o quebra-cabeça para mim.
— Sim, os ouvi dizendo isso… quando acordei na casa, descobri que eles não podiam me ver. Não foi muito difícil chegar à conclusão óbvia de que eu estava morto. Meus pais estavam tão inconsoláveis, sou filho único. Minha mãe teve complicações no meu parto e, após isso, nunca mais engravidou. E o herdeiro deles havia desaparecido sem deixar rastros… desolados, eles se mudaram daqui o mais rápido possível, foram ficar com seus parentes no interior de São Paulo, onde receberam apoio para enfrentar o ocorrido. — Explicou calmamente, enquanto andava de um lado para o outro no centro do quarto. — Sabe, sempre deixei claro que meu lugar não era em uma fazenda, eu queria explorar o mundo, ser geólogo. Queria pertencer à cidade e à natureza, tudo ao mesmo tempo…, mas jamais abandonaria minha família de tal forma.
Dava para sentir a agonia que afligia o coração dele, eu acreditava em cada palavra que deixava seus lábios. Afinal, o que ele teria a ganhar mentindo para mim? Ele já está morto e preso dentro dessa casa que deveria portar suas melhores lembranças, mas que agora está mais para seu inferno particular.
Minha meta era conseguir libertá-lo dessa prisão horrorosa, pessoas que se foram merecem no mínimo paz. Era claro, algo muito poderoso o prendia aqui. E eu era a única que podia ajudá-lo.
De repente, minha bexiga me lembrou que eu não era só pesquisadora de fantasmas, mas humana também. Levantei, enquanto Elias brincava de “fantasma de plantão” sobre a cama.
— Ei! — Ele exclamou, flutuando com expressão divertida. — Eu tô confortável aqui, sabia?
— Ah, claro, fique à vontade… enquanto tento não dar de cara com você no escuro do banheiro. — Respondi, já sentindo minhas bochechas pegarem fogo.
— Corando, hein? — Elias sussurrou, e juro que senti o ar gelado no meu pescoço. — Tô percebendo umas reações… interessantes.
— Me deixa mijar em paz, faz favor!
Ouço sua risada debochada enquanto me afasto em passos longos e duros.

Além da minha rotina noturna com Elias, outro costume permanecia forte: cestas caprichadas chegavam sem eu ver quem deixava. Fiquei só pensando se existia alguém mesmo ou era algum espírito caprichoso da cozinha? E Elias, claro, não deixava passar nenhuma oportunidade de me provocar:
— Não faz ideia de quem coloca as cestas aí, não é?
— Sei não… — Falei, fingindo ser misteriosa, achava que estava no meu direito de ter um segredinho mínimo que Elias não saiba.
— Dica: não sou eu… ou será que sou? — Ele flutuava próximo, irônico como sempre.
— Qualquer dia desses, acordo mais cedo só para descobrir.
— Não faça promessas que não possa cumprir, minha querida. Suas noites têm sido interessantes demais para deixar de curti-las comigo.
— Não enche.
— Adoro aquela sua lingerie vermelha.
— Elias!
Meu fantasma saiu flutuando e dando risada.

Enquanto isso, comecei a explorar a casa, guiada pelos conselhos dele, ou melhor, pelas provocações que soavam como instruções:
— Esse corredor não é pra andar devagar, sabia? — Ele resmungava sempre que eu ficava indecisa.
— Ei! Eu tô observando cada detalhe, tá? — Respondi, lenta como caramujo, segurando o mapa antigo da casa que ele havia feito à mão.
— Observando, ou enrolando? — Elias piscou para mim, depois senti o ar gelar atrás do meu pescoço quando ele flutuou mais perto, como se desafiasse minha lerdeza.

Me joguei na poltrona da biblioteca, abraçada ao exemplar de O Alquimista, e tentei retomar minha leitura. Até imagino que o livro deva ter sido encontrado “por aí” pelo seu Noberto, já que é um lançamento da década de 80 (bem depois do Elias bater as botas). Cara, quem em sã consciência joga um clássico desses fora? Paulo Coelho é um gênio. GÊ-NIO! É por isso que no Brasil tem tanta gente sem noção… (não estou nem aí se alguém se sentir insultado).
Posso ter uns miolos a menos, mas pelo menos eu leio!
Passei o dia e a noite toda com o fantasma, precisava de um pouco de paz e solidão. As páginas estavam amareladas, mas as letras eram nítidas. Logo na introdução, li em voz alta:
— “Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo.”
Revirei os olhos.
— Aham… claro. Se fosse assim, já teria conspiração suficiente pra eu estar de férias em Noronha com uma conta bancária recheada.
Um vento frio passou pelo meu pescoço. Olhei pro lado e, óbvio, lá estava Elias, recostado na estante, com aquele ar de “eu sou a prova dessa frase”.
Já anota aí, amiga…
Fantasma é igual ex: aparece sempre quando você menos quer.
— Ah, não… — Balancei o livro na direção dele. — Nem vem. Isso aqui é conversa bonita de livro, não convite pra você se achar.
Ele apenas arqueou a sobrancelha, divertido.
— Conversa bonita ou não, você me desejou… e cá estou.
Eu não diria que havia o desejado, mas o dinheiro que recebo por habitar o mesmo espaço que ele, sim! Isso, sem dúvidas.
— Não começa, Elias. — Fechei o livro de repente, uma pequena nuvem de poeira se desprendeu das páginas. — Se o universo realmente conspirou pra eu topar com um fantasma bonitão, alguém lá em cima tem um senso de humor bem distorcido.
Ele sorriu, aquele sorriso galanteador e impossível de resistir.
— Ou talvez esteja tentando te ensinar alguma coisa.
Suspirei, abraçando o livro contra o peito.
— Pois espero que a lição venha com menos arrepios na espinha e mais dinheiro na conta bancária.
— Até onde sei, você tá sendo muito bem paga por isso.
Elias cruzou os pés, ligou a TV – com a força do além, dos seus poderes, ou seja, o que for que o abençoou com dons invejáveis – e me encarou com um detestável sorriso arrogante.
Aí que ódio! Esse fantasminha insuportável me paga! Literalmente…
— Você tem razão, que ótima experiência! Vai entrar na minha carteira de trabalho como: babá de fantasma. Show!
— Se continuar reclamando, te expulso daqui e você vai continuar pobre e soberba.
O encarei de queixo caído pela audácia. Que fantasma descarado, viu!
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