Capítulo 15

Mais do que meu queixo caiu neste capítulo.

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“Mas o destino, como um fantasma,
lançou sua longa sombra numa noite fria
e sem estrelas.”
— Os Fantasmas se Divertem

 

Tunico segurava firmemente minha cintura enquanto me apoiava nas paredes úmidas da entrada da gruta. O chão lamacento escorregava a cada passo e o cheiro de terra molhada misturado com musgo me fez franzir o nariz. A lanterna do celular, que eu mal usei até então, lançava feixes trêmulos que transformavam cada sombra em algo vivo e ameaçador.

— Ave Maria! — Exclamou Tunico, abanando o chapéu e tropeçando num pedregulho. — Parece trabalho de arquiteto maluco!

Antes que eu pudesse rir, um bando de morcegos surgiu do teto da gruta, voando rente às nossas cabeças. Dei um pulo, e Tunico quase perdeu o equilíbrio:

— Credo em cruz! Morcego voador! — Gritou, quase caindo de costas.

— Eu tô fazendo um esforço colossal para não dar meia-volta e sair correndo… — Comentei, não queria magoar Elias, mas estava muito difícil de enfrentar o medo.

— Se fantasma já joga sapato em mim lá na casa, imagina o que tem escondido nesse trem aqui!

Elias estava alguns passos à frente, braços cruzados, semblante sério, analisando tudo ao nosso redor. Ele respirava devagar, mas sua expressão denunciava tensão – como se cada sombra despertasse memórias dolorosas.

— Fiquem tranquilos, ninguém vai morrer aqui dentro. Não comigo aqui. — Disse ele, a voz firme. — Sinto algo forte. Estamos chegando perto.

Adentramos a gruta com cuidado. Cada passo ecoava, o gotejar constante da água reverberava nas paredes como um tambor de suspense. As paredes estavam cobertas de musgo e pedras pontiagudas surgiam do nada. Cada sombra parecia se mover sozinha.

Chegamos à beira de uma queda. O abismo abaixo parecia engolir a luz da lanterna. Tunico olhou para mim, olhos arregalados e lábios tremendo entre medo e entusiasmo:

— Eu vou primeiro, moça. — E sem esperar, começou a descer, agarrando-se nas rochas escorregadias.

— Tunico, por favor, toma cuidado.

Eu sabia que ele tinha um pouco de medo, mas estava enfrentando tudo com astúcia por minha causa. Mal sabia que não precisava pôr a vida dele em jogo por mim, ele já havia me conquistado.

Cada passo dele era calculado, mas não sem tropeços: escorregou duas vezes, quase rolando para a água.

— Segura firme! — Gritei, agarrando seu braço. — Não quero ver você esmagado no chão da caverna!

Não era muito fundo, com o auxílio cuidadoso de Tunico, fui descendo devagar. Só aceitei o desafio, porque sabia que o caipira estava pronto para me agarrar lá debaixo e Elias também estava a postos.

Quando finalmente cheguei ao destino, o cenário era de tirar o fôlego – e de gelar a espinha…

Um poço d’água verde azulado brilhava em meio à escuridão, mas sua beleza era ofuscada por ossos antigos, encostados na parede úmida da gruta. Uma lamparina quebrada jogada ao chão. Uma mochila esquecida num canto. A luz da lanterna refletia nos ossos empoeirados, criando sombras assustadoras contra as pedras no fundo da caverna.

— Isso… isso é… Elias? — Murmurei, engolindo em seco.

Tunico coçou a nuca, as mãos tremendo:

— Nu… eu sabia que ele tava por aqui, mas nunca pensei… que fosse desse jeito.

Elias avançou, sua imagem fantasmagórica oscilando. Não precisava estar dentro dele para compreender que suas memórias estavam surgindo em flashes dolorosos:

— Agora me lembro de tudo… — Ele começou a explicar, abaixando-se diante dos seus próprios ossos. — Eu vinha sempre até a cachoeira. Muitas das vezes sozinho. E estava sempre explorando os arredores. Até que vi uma raposa entrar por um feixe entre as pedras. Foi assim que cheguei até a gruta. Fiquei apaixonado por esse lugar, era só meu. Mantive segredo de todo mundo. Passava horas sozinho aqui… E agora sei que desapareci no dia anterior ao meu casamento.

Sua voz era um fio fino e trêmulo, cheio de dor.

— Elias… — Toquei seu ombro com cuidado.

— Ele tá aqui? — Tunico arregalou os olhos, assenti positivamente. O homem fez o sinal da cruz em respeito.

Comecei a ditar para ele tudo que Elias dizia:

— Geralmente eu vinha descalço e tudo, pois sempre mergulhava na água antes de entrar na gruta. Com as roupas na mochila, eu vinha explorar. Até que, naquele maldito dia, pisei num inseto peçonhento. Era um escorpião… e o resto é um pouco óbvio: ele me picou… levei um baita susto com a dor dilacerante, tropecei e caí aqui embaixo…

“Minha morte foi lenta e agonizante. Na queda, bati a cabeça com força e quebrei uma perna. Desmaiei por horas. Devo ter tido alguma convulsão ou algo do tipo, o que lesionou ainda mais meu cérebro. Só lembro de flashes, a luz do lampião ao longe acesa, dando-me um pouco de claridade.

Eu acordava e desmaiava muito rapidamente. Lembro de encarar o breu, pensando: ninguém vai me encontrar aqui. Me concentrei na imagem de Ester, esperando que o amor verdadeiro me desse forças para me levantar e sair daqui. Entretanto, não foi o suficiente.

Fiquei agonizando com as lesões da queda e o veneno em meu sangue, causando-me uma febre intensa. A luz do lampião começou a oscilar, mas fechei os olhos para a morte antes de ficar no completo escuro…”

— Quando “acordei” lá na casa, não me lembrava de nada. Minha última lembrança era que eu deveria ir à igreja me casar com Ester…

Um soluço rompeu dos meus lábios, mas segurei o choro com todas as forças. Tunico ficou mudo. Elias apenas encarava seu esqueleto. A dor que ele sentia era quase física, sufocante. Segurei sua mão, transmitindo força.

Me lembrei de uma das minhas frases favoritas de Supernatural: “A força que me restou, ofereço-a a você”, era isso que eu estava tentando fazer por ele agora.

Quanto mais perto eu estava, mais ele parecia recuperar fragmentos de si mesmo.

Contudo, era impossível ignorar a tristeza em meu coração. Ninguém nunca o encontrou. Será que sequer o haviam procurado?

Meu coração doía por Elias. Ele era um homem incrível e merecia imensamente mais do que isso…

— E-eu sinto muito, Elias…

— Está tudo bem, mon chéri. Não chore.

Me atirei em seus braços, o tomei com força. Queria arrancar toda a dor e tristeza do seu ser. Mas eu não tinha esse poder. Elias beijou o topo da minha cabeça com carinho e afastou-se minimamente para encarar meus olhos embaçados.

— Aposto que não pareço tão gostoso agora, né? — E riu, fazendo-me bufar de raiva. A piada ridícula sobre seus ossos não tinha graça alguma.

— Oh, gente? Oi? Eu aqui, óh! — Tunico chacoalhou as mãos na nossa direção. Só então me dei conta que a visão dele deve ser assustadora. Eu aqui, abraçada ao “nada”. — Meus sentimentos, mas… acho que a gente tem que chamar a polícia.

— Tunico tem razão. É hora de revelar ao mundo o que de fato aconteceu comigo. — Concordou Elias.

Enxuguei os olhos com as mãos.

— Você tem certeza que quer isso?

— Sim, Lina. Agora sei que é tudo que minha alma anseia para finalmente poder descansar em paz. — Elias revirou os olhos. — Ah, claro, como se eu tivesse cansado. Mas, enfim, eu tô morto mesmo, né?

— Infelizmente, sim… — Murmurei, muxoxo. — Mas antes, posso olhar o que tem dentro daquela mochila? — Achei que seria respeitoso pedir permissão ao fantasma. Não queria profanar o local de um defunto.

— Vá em frente.

Puxei o objeto coberto de poeira do canto da gruta. O couro estava endurecido pelo tempo, cheirando a mofo, e minhas mãos tremeram quando abri o zíper. Dentro, não havia nada de comum: laços de fita colorida, algumas velas ainda embaladas, flores secas que se desfizeram em pó ao meu toque. No fundo, um tecido branco dobrado com um cuidado que não combinava em nada com aquele lugar escuro.

Meu coração disparou. Não eram coisas largadas por acaso – eram preparativos. Planejados, guardados. Uma surpresa que nunca se concretizou.

— Uai… — Tunico se abaixou ao meu lado, coçando a nuca, os olhos arregalados diante do conteúdo. — Parece coisa de festa, né? Mas quem é que ia preparar isso aqui no meio dessa escuridão assombrosa?

Não precisei responder, porque a presença gelada atrás de mim falou mais alto do que qualquer palavra. Levantei os olhos e o vi parado na sombra, olhando para a mochila como quem encara um segredo – agora revelado. O rosto dele oscilava entre assombro e dor.

— Eu… — A voz dele quebrou no ar, tão baixa que parecia um sussurro de vento. — Eu ia mostrar este lugar pra ela… pra Ester. Como uma surpresa após nosso casamento. Ninguém mais sabia da gruta. Era… era nosso começo.

As fitas em minhas mãos pareciam mais pesadas, como se carregassem todo aquele amor não vivido. Engoli em seco.

— A Ester me entendia como ninguém. Ela sabia do meu amor por geologia e descobrir a gruta certamente fazia meu coração saltitar de um jeito especial. Eu trouxe tudo isso para decorar o lugar e deixá-lo menos amedrontador para ela. Na minha cabeça, era um presente de casamento muito especial…

Tunico, calado, somente ajeitou o chapéu na cabeça e desviou o olhar, desconfortável, como se tivesse invadido um luto que não era dele.

A mim coube segurar aquelas memórias nas mãos – e a certeza de que o fantasma não estava apenas preso à fazenda, mas também a esse mistério nunca revelado.

A imagem me atingiu como um soco: Elias escondendo esse segredo, guardando a gruta como o tesouro mais precioso, esperando o momento certo para revelar tudo à mulher que amava. Esse era o lugar favorito dele no mundo… e ele queria que ela fosse a primeira a conhecer.

E Ester… pobre Ester. Abandonada no altar. Ela deve ter passado uma vida inteira se questionando o que havia acontecido. Onde estava todo aquele amor que Elias sentia para abandoná-la? Detesto finais trágicos.

Segurei o caderno que estava por último, a capa gasta, as letras rabiscadas na primeira página: “Para o começo de uma vida juntos”. Era uma carta que começou a ser escrita, mas nunca foi terminada. A garganta fechou, e só então percebi estar prendendo a respiração.

Aquilo não era somente uma mochila esquecida. Era um retrato silencioso de um futuro que nunca aconteceu.

— Lina? — Elias me chamou com cuidado.

Me coloquei de pé e fui ao seu encontro, ele segurou minhas mãos e se esforçou para prosseguir com a voz mais firme que ele conseguia naquele momento:

— Há algo que preciso que você faça.

— É só dizer. Faço qualquer coisa por você.

— Minha ex-noiva… Ester… precisa saber a verdade.

Meu coração apertou.

— Mas, Elias… ela… — Comecei, lembrando que talvez ela não estivesse mais viva.

— Talvez Tunico possa ajudar, ele conhece todo mundo que mora aqui em Capitólio.

— Você está certo…

Expliquei tudinho para Tunico que ouviu atentamente. E aquele brilho de “sempre tem solução” nos olhos, me interrompeu:

— Eu cunheço arguém que pode ajudá, moça. Num vamo deixar esse mistério murre aqui.

O fantasma assentiu, aliviado, e percebi que o nó da alma dele começava a se desfazer. Pela primeira vez desde que o conheci, senti que ele encontrava um pouco de paz.

Enquanto Elias nos guiava para fora da caverna, morcegos continuavam voando acima, batendo levemente na lanterna e fazendo a luz dançar nas paredes. Eu dei um pulo dramático, tentando me esquivar de um morcego imaginário e quase me estabacando de cara no chão. Fui salva por Tunico que manteve suas mãos em mim o tempo todo.

— Se argum bicho me murde agora, juro que chamo Santo Antão pra me sarvar!

Bastava de escorpiões traiçoeiros! Eu só queria sair dali o mais rápido possível.

— Tunico, concentra! — Ri, apesar do medo. — Eu só preciso ver a luz do sol de novo!

Respirei fundo, absorvendo cada detalhe da história trágica: o cenário úmido, os ossos, o frio da gruta, a tensão de quase cada passo. Cada instante misturava horror e fascínio.

Tropeçando levemente em cada pedra que se punha em meu caminho, ainda assim consegui sair da gruta viva. Parte da minha promessa havia sido cumprida. Um alívio imenso se apossou do meu coração. Anunciei cheia de esperanças:

— Bora sair dessa caverna antes que algum morcego esbarre em mim, me jogue na água, mas calma… agora a gente sabe a verdade e pretendemos conta-la pro mundo.

E naquele instante, percebi que nossa aventura estava apenas começando. A gruta não guardava só os segredos do passado, mas também a promessa de os resolver – com coragem e uma boa dose de cuidado para não escorregar.

 

“A morte é apenas o começo.”
— Ghost, Do Outro Lado da Vida

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