Capítulo 6
Uma pessoa que precisa mais que eu atravessar paredes.
– ELIAS, O FANTASMA –
“Não posso lutar com você…
estou ocupado…
assombrando pessoas normais!”
— Os Caça-Fantasmas
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O quarto estava silencioso, exceto pelo suave ressonar da respiração de Lina.
Devo estar sentenciado ao inferno por me apaixonar por alguém estando condenado ao mundo dos mortos. Não me restam mais dúvidas. O inferno é na terra. Você o vive em vida primeiro para depois subir de nível quando morre e vira um espírito vagando sem direção.
Tento parar de me machucar com meus pensamentos deploráveis e estúpidos; por isso meu foco é em assistir Maria Lina. Quero memorizá-la no mais profundo da minha alma. Cada curva, cada movimento mínimo da cama despertava algo em mim – uma mistura de fascínio e frustração.
Eu queria tocar, sentir, explorar, mas sabia que qualquer excesso poderia machucá-la. Não no sentido literal, mas emocional. Nossas almas – apesar das condições nada normais –, se atraíam feito ímã. Sinto um desejo insano por ela, assim como percebo a tensão na sua respiração. Seus batimentos descompassados destinados a mim. Estamos nos apaixonando um pelo outro. Coisa que julguei nunca mais me ser possível.
Então me limitei a pequenos gestos etéreos: deslizei minhas mãos geladas sobre a sua pele, apenas para provocar arrepios que a fizeram mexer levemente.
“Como alguém consegue ser tão desajeitada dormindo?” pensei, divertido e um pouco torturado ao mesmo tempo. Seu desastre é seu charme absoluto. Adoro tudo nela, mesmo quando precisa de mais de 1 minuto para formular uma frase em resposta. Ou quando precisa dos meus braços para não despencar escada abaixo, após tropeçar nos próprios pés. Irônico, não? Um fantasma salvando uma estabanada de se tornar uma alma-penada.
Seus cachos se moviam sozinhos sob os lençóis, deslizando suavemente sem motivo aparente. Ela se remexia como se estivesse sonhando com algo tentadoramente perigoso. Eu podia sentir cada batida do coração dela, cada suspiro, como se fossem ondas me atravessando.
Eu a queria.
Todo o meu ser espectral desejava cada centímetro dela, mas sabia que não podia dar-lhe nada concreto. Ela merecia alguém vivo, alguém que pudesse segurá-la nos braços sem desaparecer em nuvens de névoa. Ciúme se misturava com cuidado – outros homens poderiam ser bons para ela, e isso doía mais do que eu esperava admitir.
Me apaixonar traz lembranças à tona: a vida antes da morte. O calor de Ester – meu grande amor inacabado. Cada memória me lembrava que meu tempo havia acabado, mas a presença de Maria Lina fazia meu espírito se sentir vivo de novo, quase humano.
O desejo latejava, então precisei me distrair. Foi aí que o piano dedilhou sozinho, notas erráticas e fora de ritmo que quase me arrancaram um riso. O som ecoou pelo quarto, como se zombasse de mim: “Olha só o fantasma apaixonado que não pode tocar o que deseja.” Um livro caiu logo depois, abrindo-se exatamente numa página sobre paixões proibidas – e eu soube que até a casa estava conspirando contra mim.
Pequenas travessuras fantasmagóricas – minha maneira patética de aliviar a tensão, de marcar presença, de deixar claro que eu estava ali, sempre ali.
Mas nunca visto. Nunca ouvido.
Até Maria Lina chegar.
Amanhecia quando percebi a chegada do fazendeiro vizinho, ele que sempre deixa a cesta diária. Bom rapaz, genuíno, gentil – alguém que poderia fazê-la sorrir sem complicações. Alguém que não tinha limites além da física humana. E pelo que pude perceber, um homem que não tem muita sorte no amor.
Uma pontada de dor me atravessou, mas a decisão se impôs: eu seria o cupido silencioso. Mais que a minha libertação, queria a felicidade dela. Já que jamais poderia ser o que ela merecia.
Voltei para perto da cama, sentindo o frio da minha mão tocar levemente a dela, um arrepio que fez seu corpo se contrair. Rocei meus lábios gélidos em seus cabelos, suavemente e sussurrei ao pé de seu ouvido:
— Alguém está na porta…
Ela despertou com um leve susto, esfregando os olhos sonolentos.
— Aí, meu Deus, quem será?
— Não tema, querida, estou aqui para te proteger. — Enquanto eu vagasse nesta casa, ninguém a machucaria. Nunca. Isso é a única coisa que posso lhe garantir.
Lina me devolveu um sorriso gentil e pôs-se de pé, vestiu o robe que fazia par com a camisola sexy de renda branca que ela trajava ontem à noite – quando a toquei pela primeira vez.
Me afastei, observando de fora, dividido entre desejo e razão. Cada gesto dela me apertava o peito espectral, mas a felicidade dela valia mais do que a minha vontade.
Enquanto me retirava do quarto, senti uma última oportunidade de provocação: toquei levemente seu ombro, apenas o suficiente para que ela sentisse, um arrepio inocente percorreu sua pele. Um beijo sussurrado sobre seu cabelo, frio, mas carregado de sentimento que só ela poderia sentir.
Observei de longe, meu coração preso entre desejo e dever. Lina sorria para o rapaz, leve, feliz. E mesmo sabendo que meu amor por ela seria sempre impossível, senti algo raro e profundo: paz. Ela merecia ser feliz, mesmo que isso significasse que meu próprio coração fantasmagórico ficasse vazio.
Ainda assim, cada gesto dela, cada risada, cada movimento da cama fazia meu espírito se mexer de maneiras que não aconteciam há décadas. Eu a queria, mas escolhi deixar ir. Um fantasma poderia atravessar paredes, mas não podia atravessar a felicidade dela sem arruiná-la.
E, silenciosamente, prometi a mim mesmo: enquanto ela pudesse sorrir, enquanto tivesse alegria, eu estaria ali. Invisível, brincalhão, protetor. Sempre.
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“Pode um coração se partir
depois de já ter parado de bater?”
— A Noiva-Cadáver
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